Capricho do Destino                              Penny Jordan



                 Capricho do Destino
                   Penny Jordan

              (The Marriage Resolution  1999)




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Capricho do Destino                                                     Penny Jordan


       Captulo 1



       Dee Lawson fez uma pausa para admirar os canteiros de flores na praa
principal da cidade que adorava desde que nascera.

       Voltava de um encontro com as suas trs amigas, Kelly, Beth e Anna.
Costumavam reunir-se num caf, sempre que encontravam uma oportunidade. Beth e
Kelly eram scias de uma encantadora loja de artigos de vidro num imvel da sua
propriedade, mas a amizade datava dos tempos de escola. Anna era prima de Beth.
Estava radiante no seu oitavo ms de gravidez e era o centro das atenes.

       Faltavam apenas algumas semanas para o casamento de Beth. Anna queria estar
presente. Bastaria o beb ter um pouco de pacincia e o mdico dar-lhe permisso
para fazer uma pequena viagem. Beth e Alex amavam-se muito e ela adoraria v-los no
altar.

       Dee no parara de olhar para elas nem sequer por um segundo. As amigas
mereciam toda a felicidade do mundo. Ela prpria, se pudesse escolher, tambm
gostaria de se casar e ter filhos. Aquele era o seu maior sonho. Mas tinha poucas
esperanas de que um dia ele fosse realizado.

       Tudo poderia ter sido to diferente...

       Talvez ainda pudesse! No era demasiado velha, afinal, para ser me. Anna era
mais velha do que ela. Muitas mulheres tinham os seus primeiros filhos aps os trinta
anos. E ela tinha apenas trinta e um. Alm disso, estava tornando-se comum que uma
mulher resolvesse fazer uma produo independente.

        Os tempos eram outros. Bastava a mulher dirigir-se a uma clnica de
fertilizao e especificar as caractersticas biolgicas do doador.

       No caso de Dee, no entanto, as expectativas no se limitavam a uma gestao.
Por mais forte que fosse o seu instinto maternal, ela queria que o seu beb nascesse
num lar tradicional e seguro. Conhecia o significado da perda desde que nascera e no
tivera a me a seu lado. Por mais que o seu pai se tivesse esforado para suprir a falta
da esposa, Dee nunca pudera deixar de olhar para as outras crianas de mos dadas
com as mes sem sentir um aperto no peito.

       O seu sonho poderia ter-se tornado realidade, se Julian Cox no tivesse
destrudo a sua oportunidade de ser esposa e me.

       Todas as suas tentativas para localiz-lo tinham-se revelado inteis. Ele era um


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homem astuto e perigoso. Os seus golpes, soube mais tarde, tinham atingido um
grande nmero de pessoas, principalmente mulheres.

      Dee balanou a cabea para afastar o pensamento e olhou para o prdio de trs
andares  sua frente. O engenheiro tinha mandado retirar os tapumes da obra e a
fachada georgiana podia agora ser vista em todo o seu esplendor.

       Quando comprara o imvel, ele estava em risco de desabar. Fora uma tarefa
rdua convencer os membros da Cmara Municipal, o arquiteto e o engenheiro a
salvarem o prdio. Mas o esforo valera a pena. Os trabalhos de restaurao tinham
sido perfeitos. Ele recuperara a sua imponncia original.

        Jamais esqueceria o momento glorioso em que o Presidente da Cmara cortara
a fita sob a placa dourada em que ela mandara gravar o nome do seu pai, in memoriam,
e os dizeres que estabeleciam que os fundos para a obra tinham sido doados por ele.

       O ltimo andar abrigaria os escritrios onde ela cuidaria de tudo o que dizia
respeito s obras de assistncia sob a sua superviso. Os dois primeiros funcionariam
como um centro de convivncia, com palestras e cursos. Os seus planos eram montar
um caf, uma sala de msica e tambm uma pequena biblioteca. O local seria uma
espcie de clube.

       No hall de entrada, Dee colocaria um retrato do seu pai.

        Ele tinha sido um homem e um pai maravilhoso. O seu raciocnio analtico e a sua
inteligncia brilhante fizeram-no enriquecer e tornar-se uma pessoa de prestgio no
mundo dos investimentos. Mas acima de tudo, o seu pai fora bom e generoso. Foi dele
que Dee herdou a devoo aos seus semelhantes. E seria em nome dele que continuaria
a cuidar da populao carente da sua regio.

     Mas no foi apenas a inclinao para a caridade que Dee herdou do seu pai. Ela
tambm era uma executiva esperta e incansvel no mundo dos negcios.

       Como no precisava de dinheiro para sobreviver, pois a herana deixada pelo
seu pai garantiria a sua segurana e conforto pelo resto dos seus dias, Dee dedicava-
se quase integralmente  melhoria da qualidade de vida dos outros.

      Dee estava grata  sorte pelo muito que tinha, no apenas em matria de
conforto, mas tambm de amizades.

       A sua famlia tinha razes espalhadas pela regio h diversas geraes. A
maioria dos parentes vivia no campo, mas ela mantinha laos estreitos com todos eles.

       Sim, tinha muito a agradecer. Por que motivo, ento, no conseguia sentir-se



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inteiramente feliz? Por que no arrancava de vez aquela mgoa do peito?

       Respirou fundo. No queria entregar-se a recordaes dolorosas. Alis, no
entendia o que as despertara. No estava certo sentir tristeza, quando Anna estava
to radiante e Beth e Kelly to felizes.

       Ergueu os olhos para o cu. Parecia uma pintura. O azul estava intenso e as
poucas nuvens que o enfeitavam pareciam feitas de algodo.

       Ao redor da praa, as lojas j estavam decorando as suas vitrines com flores e
cartazes anunciando as festividades do primeiro de Maio, data muito comemorada e
cuja tradio remontava  era medieval.

       Haveria um desfile de carros alegricos patrocinados pelas principais empresas
da regio, a apresentao de uma fanfarra, uma grande fogueira e um sensacional fogo
de artifcio.

       Como uma das principais coordenadoras do evento, nomeada pelo comit de
festas, Dee sabia que em breve no teria nem sequer tempo para respirar.

       Era preciso organizar at mesmo o trnsito, estabelecendo regras especiais
para aquele dia. Em tempos passados, como Dee teve oportunidade de descobrir por
meio de um documento que lhe tinha chegado s mos, os responsveis pela festa
precisavam de impor regras no para o trnsito de carros, mas de carneiros, bois e
cavalos.

       Por mais que Dee insistisse em ocupar os pensamentos com o seu trabalho, foi
obrigada a voltar ao assunto de gravidez e bebs, naquela noite ao chegar a casa. Uma
prima por parte da sua me tinha tido gmeos e a outra prima que estava telefonando-
lhe adiantou que ela seria convidada para ser madrinha.

       Dee comeou a pensar nos presentes que compraria quando fosse visitar a
prima na maternidade, mas logo se obrigou a colocar uma trava na sua imaginao.

       No havia melhor distrao para a mente do que o trabalho. Aquela fora uma
das principais lies que o seu pai lhe dera desde que atingira idade suficiente para
ajud-lo nos negcios.

       Fora de vontade e determinao eram qualidades positivas e admiradas por
todos, dizia ele. Talvez fossem, pensou Dee, mas no decorrer dos anos ela tambm
aprendeu que os homens temiam, mais do que apreciavam, esses atributos nas
mulheres.

      Dee ligou o computador e censurou-se por se entregar quela linha de



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pensamento. Mas realmente no podia conter a parte rebelde do seu crebro, que
insistia em dizer que os homens preferiam as mulheres frgeis, que dependiam da sua
proteo. E ela no era do tipo vulnervel.

       Pelo menos no tinha a aparncia de ser. Alta e elegante, Dee despertava inveja
nas mulheres pelo seu corpo esbelto e bonito e tambm pela sua flexibilidade e pelo
seu incansvel bom humor. Gostava de fazer caminhadas, de nadar e de danar. Nos
encontros em famlia, era sempre a primeira a ser chamada para comandar os jogos e
as brincadeiras.

      Os cabelos cor de mel eram lisos e compridos, e ela costumava us-los presos
num apanhado clssico na nuca. Nos tempos de faculdade, recebeu um convite para ser
modelo, diretamente do dono de uma das agncias mais famosas do pas.

       Dee, porm, como nunca tinha colocado a beleza e a elegncia como prioridades
na sua vida, no teve dvidas em recusar a oferta.

       Em vez de diminuir, a graa de Dee aumentou com o passar dos anos. Ela no se
dava conta, mas sempre que andava pelas ruas era alvo de mais de um olhar por parte
das pessoas, em especial dos homens. E o que mais os intimidava no era a sua
personalidade, como ela imaginava, mas a sua extraordinria beleza e o seu bom gosto
na escolha de roupas. O seu estilo clssico era o fator principal pelo qual os homens a
consideravam algum fora do seu alcance.

       Dee franziu o rosto ao olhar para o monitor  sua frente. Uma das mais
recentes instituies de caridade que ela tomara sob a sua proteo no estava
atraindo o apoio pblico necessrio. Seria preciso encontrar um meio de corrigir esse
problema.

       Talvez devesse procurar Peter Macauley e aconselhar-se com ele. Alm de ter
sido amigo do seu pai, Peter fora seu professor na faculdade e eles compartilhavam
dos mesmos ideais filantrpicos. Solteiro e sem descendentes, ele tinha indicado Dee
como uma das executoras do seu testamento, porque sabia que ela seria capaz de
fazer cumprir os seus desejos.

       Aps a morte do seu pai, Peter fora designado pelo conselho de administrao
para administrar o setor financeiro da instituio.

       Ao pensar em Peter Macauley, Dee no conseguiu prosseguir com o trabalho.
Sabia que o professor e amigo no estava recuperando-se bem da cirurgia que fizera
h alguns meses. Na ltima visita que lhe fizera, em Lexminster, ficara impressionada
com o seu aspecto.

       Habituado a viver perto da universidade onde lecionara durante muitos anos,


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Peter relutava em atender o pedido de Dee para que se mudasse para Rye-on-Averton,
mais precisamente para sua casa, onde ela teria condies de cuidar dele como
desejava.

       Quando jovem, Dee escolheu a universidade de Lexminster para estudar
principalmente porque era a mais prxima da sua casa. Alm de oferecer o curso que
ambicionava fazer, no a levaria para longe do seu pai. Na poca, quando ainda no
havia uma auto-estrada que ligasse as duas cidades, o trajeto era de quatro horas.
Assim, impossibilitada de viajar todos os dias, Dee resolveu morar numa residncia
com os demais estudantes e ir a casa aos fins-de-semana.

      Parecia fazer um sculo que vivera aquela fase. No entanto, apenas se tinham
passado dez anos. O suficiente, porm, para ela se transformar de uma garota numa
mulher madura.

       O ano de formatura coincidira com a morte do seu pai. Dez anos, mas era como
se tivesse acontecido no dia anterior. Ela ainda no se tinha recuperado da dor da
perda e do sentimento de culpa.

       Dee levantou-se abruptamente e desligou o computador.

      O encontro com as amigas no tinha trazido  tona apenas o seu sonho secreto
de ser me, mas aberto uma velha ferida. Inconscientemente, ela tocou a base do
dedo anelar, onde deveria haver uma aliana.

       Respirou fundo.

      No podia continuar cultivando angstias. Precisava de se ocupar com algo. Algo
como uma visita a Peter, em Lexminster, talvez.

       Costumava ir v-lo a cada quinze dias, pelo menos. Mas nunca lhe contava o real
propsito da sua visita. Inventava sempre uma desculpa. Geralmente, dizia que estava
com algum problema e que precisava de consult-lo a esse respeito. No queria que
Peter percebesse a sua ansiedade pelo precrio estado de sade em que ele se
encontrava.

       Durante o trajeto, sem que percebesse, a sua mente tornou a divagar.

       Como estava excitada ao empreender a sua primeira viagem a Lexminster como
caloura! Lembrava-se de cada minuto daquele dia quente de Setembro.

       Deixou o carro, presente do seu pai por ocasio do seu dcimo-oitavo
aniversrio, no estacionamento. Cuidava dele com orgulho e carinho. O seu pai, apesar
de rico, sempre a ensinara a dar valor ao que possua. Acima de tudo, ele ensinara-lhe



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que o amor e a lealdade eram mais importantes do que o dinheiro, pois no podiam ser
comprados.

      O alojamento das primeiras semanas foi substitudo por uma pequena casa,
comprada com a ajuda do seu pai.

       Aqueles foram os melhores anos da sua vida. E os piores.

       A cidade estava sempre repleta de turistas e de estudantes. Do castelo
fortificado da Idade Mdia em torno do qual a cidade fora construda restavam
apenas trechos de paredes e uma torre solitria, cujo interior mido e frio ainda
causava arrepios em Dee, quando ela o recordava.

       Queria estudar Economia. O seu objetivo era trabalhar com o pai depois de
formada. Mas antes, a sua dedicao voltar-se-ia para os povos carentes de um dos
pases do Terceiro Mundo. Por um ano. Aquela era a sua inteno original.

       Com a morte sbita do seu pai, todos os planos tiveram de ser revistos. Em vez
de ajudar os necessitados de corpo presente, ela enviaria o nico tipo de ajuda de que
poderia dispor: financeira.

       Sempre que a televiso mostrava equipes de socorro ou de ajuda, Dee
acompanhava as imagens com a respirao suspensa. Mas por mais que observasse cada
rosto, cada detalhe, nunca identificou nenhum que lhe fosse familiar.

       Dee mordeu o lbio. Por que motivo os seus pensamentos insistiam em evocar
aquela poca proibida do seu passado? De que adiantava? No tivera escolha. Tomara a
nica deciso possvel. As palavras do agente da polcia ainda ecoavam nos seus
ouvidos: um trgico acidente. A viagem de volta a Rye-on-Averton fora um pesadelo. E
a chegada, um prolongamento dele com as inevitveis perguntas e conversas.

      Ao sentir a tenso tomando conta do seu corpo, como se estivesse vivendo
novamente aqueles momentos, Dee parou o carro e obrigou-se a relaxar.

       Os seus pensamentos voltaram ao prdio que acabara de ficar pronto. O seu
sonho agora seria transform-lo num centro de convivncia, no para idosos como era
a base do programa fundado pelo seu pai, mas sim para jovens carentes.

      O seu pai. Todas as homenagens que lhe fizessem seriam poucas. Quando se
lembrava da injustia que aquele sujeito cometera com ele, do pnico que o invadira...

       Dee fechou os olhos e respirou fundo vrias vezes. Precisava de colocar um fim
naquela tortura. A sua revolta no resolveria nenhum dos seus problemas.

       Obrigou-se a olhar com ateno em seu redor. A cidade estava a progredir.


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Muitas indstrias estavam para ser instaladas na sua periferia. Pouco a pouco, a antiga
cidade universitria estava adquirindo a fama de ser o Vale do Silcio britnico.

       O bairro onde Peter morava tinha-se tornado a rea residencial mais procurada
pelos executivos que vinham instalar-se na regio, para trabalhar nessas indstrias.

       Bateu duas vezes na porta. Peter no ouvia muito bem e costumava demorar
para atender. Naquele dia, contudo, a porta foi imediatamente aberta.

       Estava por perto, Peter?  brincou Dee, distrada com a bolsa que no
conseguia fechar depois de guardar a chave do carro.  Atendeu rapidamente, hoje.

        Peter est no quarto.

        A voz no tinha mudado, apesar de terem passado dez anos desde que a ouvira
pela ltima vez.

        Hugo? O que est fazendo aqui?

      O seu corao quase parou. Ela detestou-se por isso. Por que motivo estava
comportando-se como uma adolescente diante do primeiro amor da sua vida? Porque
Hugo realmente fora o seu primeiro e nico amor?

       O modo como ele a fitou a fez engolir em seco.

       Quando se conheceram, ela estava no primeiro ano da faculdade e Hugo, no
ltimo. Ele era o dolo de todas as suas colegas, com a sua altura avantajada e o seu
tipo romntico. Onde quer que estivesse, Hugo destacava-se entre os demais. No s
pela altura, mas pela beleza. Os seus cabelos eram pretos e brilhantes e os olhos,
azul-claros. O seu corpo era musculoso, como se ele se dedicasse  prtica de variados
esportes. A sua boca era to sensual, que fazia pensar em como seria bom
experimentar os seus beijos.

        A primeira vez que eles se falaram foi a caminho do anfiteatro onde Peter
faria uma palestra. Os dois estavam atrasados e Hugo foi para cima dela e da sua
bicicleta no momento em que virou uma esquina.

      Ela conhecia-o apenas de vista. Admirou-se ao descobrir que ele fazia parte do
pequeno grupo de idealistas e seguidores de Peter.

       Por que est espantada?  indagou Hugo, admirado.  O meu relacionamento
com Peter  de longa data. Sabe disso.

         claro que sim  reconheceu Dee.  Mas pensei que...



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       Estava em estado de choque. Precisava de se controlar, antes que se trasse
ainda mais.

        Pensou que eu ainda no tinha me recuperado? Que no seria capaz de
continuar a viver sem o seu amor?

       Dee cruzou os braos. Estava realmente frio ou aqueles tremores eram
conseqncia do choque que apanhara ao encontrar a ltima pessoa que esperava ver
naquele momento?

        Como esto o seu marido e o seu filho?  perguntou Hugo.  Ele deve estar
crescido. J fez nove anos, no?

      Dee pestanejou. De que marido e de que filho estava Hugo a falar?

      Uma batida  porta soou naquele instante, arrancando-a dos seus pensamentos.

       Deve ser a mdica que chamei  informou-a Hugo.

       A mdica?  repetiu ela, confusa. Pelo que sabia, Peter sempre se tratara
com um mdico.

       Sim. Peter no est nada bem. Com licena.

      A mdica era uma mulher atraente.

        Senhor Montpelier? Sou a doutora Jane Harper. Ns conversamos ao
telefone.

       Sim, faa o favor de entrar.

      Dee no pde evitar o pensamento de que o tom de voz de Hugo foi muito mais
afetuoso com a desconhecida do que ao receb-la alguns minutos antes.

       Ele est no quarto. Queira acompanhar-me.




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       Captulo 2



      Dee seguiu-os, preocupada. Sabia que Peter no andava bem h algum tempo,
mas ouvir isso de Hugo deixara-a agoniada. Eram emoes de mais ao mesmo tempo.

       Da ltima vez que o vira, Hugo era um estudante de ps-graduao, de cabelos
longos, calas jeans e camisa. O seu esprito aventureiro e a sua aparncia caram no
desagrado de seu pai  primeira vista. A implicncia foi tanta, que ele chegou quase a
ponto de proibir o seu relacionamento com Hugo.

       Como o mundo dava voltas! Se o visse naquele instante, o seu pai no teria nada
de que reclamar.

       Dee aproveitou que Hugo estava conversando com a mdica para examin-lo.

      As calas jeans e a camisa tinham sido substitudas por terno, gravata e camisa
branca e os cabelos estavam cortados curtos e bem penteados. Mas as feies
atraentes, a boca e os olhos continuavam os mesmos. Assim como o corao de Dee.

      A ansiedade quase a sufocou. Incapaz de continuar olhando para ele e para a
mdica, Dee dirigiu-se para a escada.

        Aonde vai?  quis saber Hugo.

        Ao quarto de Peter,  claro.

      A mdica e Hugo desaprovaram a sua iniciativa com um movimento simultneo
de cabea. E antes que Dee pudesse argumentar, a mdica pediu para ver o paciente.

         Venha comigo  Hugo colocou-se  disposio. Estava sendo completa e
absurdamente ignorada, pensou Dee. Mas eles estavam enganados se pensavam que ela
iria desistir de ver o seu velho amigo. Mais ainda, se acreditavam que ela os deixaria a
ss. Dez minutos depois, quando os dois saram do quarto, Dee resolveu passar por
cima do seu orgulho ferido.

        Como  que ele est?

        O seu corao est muito fraco. Ele abusou das suas condies,
aparentemente. Confessou que tem feito esforos, mudando os seus livros de
prateleiras, para organiz-los. Lamento muito dizer isto  prosseguiu a mdica,  mas
no creio que o senhor Macauley esteja em condies de continuar morando sozinho. A
minha recomendao  que contratem algum que possa cuidar dele, ou que o levem



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para uma casa de repouso.

        Oh, no, Peter no suportaria  protestou Dee.

        Ele teve muita sorte por voc estar por perto quando ele sofreu o colapso
continuou a mdica, olhando exclusivamente para Hugo, como se Dee no estivesse ali.
 Agiu com rapidez e isso o salvou.

       Dee sentiu uma onda de indignao inund-la. Hugo tinha feito o que qualquer
pessoa faria numa situao de emergncia.  mdica no precisava ficar olhando para
ele como se estivesse diante de um super-heri.

        Tomarei providncias para que o senhor Macauley seja visitado por uma das
nossas funcionrias do servio de assistncia social  continuava dizendo a mdica,
quando voltou a lembrar-se da existncia de Dee.  Se quiser subir agora, o senhor
Macauley est  sua espera.

        Avisei-o que estava aqui  disse Hugo.

       Dee no hesitou. Embora a contrariasse deixar aquela mulher sozinha com
Hugo, ela encontrava-se ali por causa de Peter e ele talvez nunca tivesse precisado
tanto de uma amiga.

        Mortificou-a ver o professor abatido e frgil no seu leito. Ela sentou-se junto a
ele e segurou uma das suas mos.

        Ol, Peter.

        Dee. Hugo disse-me que estava aqui. No fique preocupada. Ele fez uma
tempestade num copo de gua. Foi apenas uma pequena falta de ar. No havia
necessidade de chamar uma mdica.

       Antes que Dee pudesse responder, Peter apertou a sua mo.

        No deixe que me levem para um asilo. No quero ir a parte alguma. Esta  a
minha casa. Quero ficar aqui at morrer.

       Dee receou pelo estado de agitao do professor e tentou tranqiliz-lo.

        Tenha calma. Por que est preocupado com isso?

        Eu ouvi o que a mdica disse.

       Agora Peter estava quase gritando. Por mais que ela tentasse garantir que ele
estava nervoso  toa, Peter no a escutava.



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       A porta foi aberta de repente.

       O que  que lhe disse?  acusou-a Hugo. No percebe que o est
perturbando?

       Dee queria defender-se. Hugo estava sendo injusto com ela. Mas no havia
tempo. O mais importante naquele momento era tranqilizar Peter.

        Se tiver de se mudar daqui um dia, ser para minha casa, eu juro.

       Dee viu, de esguelha, Hugo franzir o rosto.

       Afinal, o que  que ele estava fazendo ali? Jamais lhe passara pela cabea que
Peter tivesse mantido contato com o seu ex-aluno. Ele nunca tinha comentado com ela
a esse respeito.

        No quero ir para lugar nenhum; quero ficar aqui  repetiu Peter. A sua
agitao estava aumentando. Ele j tinha at mesmo derrubado os cobertores, de
tanto espernear.

         Dee reconhecia que ele no estava em condies de continuar morando sozinho.
A mdica estava certa nesse sentido. Ela precisava encontrar uma forma de convenc-
lo a ir para sua casa, ao menos por algum tempo.

        E aqui ficar, no que depender de mim  garantiu Hugo, para surpresa de
Dee.

      Ela encarou-o, perplexa. Como  que ele podia fazer promessas que no teria
como cumprir?

        Ento poderei contar realmente consigo?  quis certificar-se Peter. A sua
voz estava embargada de emoo.  Sei que uma vez me fez essa promessa, mas no
esperava que...

        Ficarei aqui contigo o tempo que for preciso  confirmou Hugo.

       Dee olhava de um e para outro. A voz de Hugo no poderia ser mais gentil. O
seu olhar, no entanto, cada vez que se dirigia a ela, era de franco desafio.

      Uma srie de questes assaltava-lhe a mente. Precisava de respostas. Mas
como? Peter era o nico que poderia d-las, e no estava em condies.

       O estado de sade de Peter estava afetando Dee em mais de um aspecto. Ela
vinha dividindo com ele a responsabilidade legal pela instituio de caridade fundada
pelo seu pai, desde a sua morte. Embora sempre tivesse sido ela a dirigir tudo, tcnica


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e praticamente falando, nada poderia ser assinado sem a concordncia legal do seu
parceiro.

       No momento que quisesse, Peter poderia designar outra pessoa para assumir o
seu lugar. Nunca tinha surgido necessidade disso at quele momento. E por essa
razo, nenhum nome jamais fora mencionado. Agora, a necessidade de uma conversa
nesse sentido era iminente.

       Peter era um cavalheiro  moda antiga. No seu modo de ver, as mulheres
precisavam do apoio dos homens. Embora no costumasse comentar o assunto, Dee
sabia que ele sempre se preocupara com o fato de ela no ser casada e no ter algum
forte para proteg-la. Ela suspeitava, inclusive, que Peter no vira com bons olhos a
autoridade que o pai lhe outorgara no seu testamento, bem como a sua confiana em
permitir que a filha passasse a cuidar de todos os seus interesses no campo
financeiro.

       Em menos de uma semana, aconteceria a reunio do conselho de administrao
da instituio. Dee pretendia fazer algumas alteraes no sistema, mas teria de
contar com a aprovao de Peter e dos outros membros.

       O seu objetivo principal era destinar uma parte maior dos donativos reunidos
para os jovens e organizar o novo centro de convivncia para uso deles, no apenas
para que se reunissem e tivessem atividades sadias com que se ocuparem, mas tambm
para que tivessem a possibilidade de desenvolverem as suas habilidades em cursos de
profissionalizao.

      Ela no tinha dvidas de que a mudana geraria protestos por parte da ala
conservadora do conselho, que via os jovens como elementos muitas vezes perigosos e
no como pessoas inseguras e com necessidade de apoio e de ateno. Mas Dee estava
preparada para defender o seu ponto de vista com unhas e dentes, se fosse preciso, e
o primeiro passo seria conseguir a cooperao de Peter como seu co-signatrio. Um
processo que seria lento e difcil, de certeza. Peter, afinal, j tinha se mostrado
alarmado mais de uma vez com a sua disposio para efetuar mudanas.

        Ele agora estava dormindo. Ela levantou-se com cautela para no acord-lo e
dirigiu-se  porta. Hugo seguiu-a.

        No precisa ficar aqui  disse ela assim que saram do quarto.  Eu
poderia...

        Poderia fazer o qu? Lev-lo para sua casa?  Hugo interrompeu-a.  E a
sua famlia? O que diro o seu marido e o seu filho? Ou so filhos agora? No. Peter
sentir-se- muito melhor onde sempre viveu. Afinal, se realmente o quisesse a seu
lado, deveria ter tratado de convenc-lo antes, em vez de esperar que ele estivesse s


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portas da morte.

       Dee sentiu um n na garganta. No apenas por no merecer a acusao, mas
principalmente porque no esperava que Peter estivesse to mal.

       Eu tentei lev-lo  protestou, aflita demais para se importar com a nova
referncia a uma famlia que no existia.  No entende...

      Peter era um homem orgulhoso e ativo, sempre cercado de amigos. A vida em
Lexminster era o que mais prezava. Mas as circunstncias...

        No ouviu o que a mdica disse? Ele no pode continuar morando sozinho
nesta casa. Se ela fosse trrea seria mais fcil. As escadas podem ser perigosas, na
sua condio.

       Ele no se sentir bem em nenhum outro lugar!  insistiu Dee.  
testemunha.

 verdade. Sou testemunha do medo que todos os idosos tm de serem
largados pelos seus familiares e amigos para viverem entre estranhos  declarou
Hugo.  J vi isso acontecer mais do que desejaria.  uma pena que as pessoas daqui
no sigam o exemplo dos povos que habitam o Terceiro Mundo. O respeito aos idosos 
ensinado desde a infncia. Em muitas tribos, os idosos so venerados e detm o poder
de deciso.

       Dee lembrou-se mais uma vez dos tempos da faculdade. Hugo e ela
compartilhavam o mesmo sonho de viajarem para esses pases em misses de
solidariedade.

       Ela no tinha conseguido realiz-lo. No sabia o que Hugo fizera durante todos
aqueles anos, mas as suas mos macias e as unhas bem cuidadas no sugeriam uma
ocupao rudimentar, como cavar poos e fossas spticas, por exemplo.

        Est me dizendo que o dinheiro  mais importante do que as pessoas?
desafiara-a Hugo, zangado, quando soube que ela estava decidida a assumir os
negcios do pai em vez de segui-lo.

      Em lgrimas, ela tinha suplicado que Hugo tentasse compreend-la. Mas ele
recusara-se a ouvi-la.

        Parece-me que a melhor soluo ser eu ficar aqui com Peter  decidiu
Hugo.  Mas antes, preciso resolver um ou dois problemas e tambm fechar a conta
no hotel onde estou hospedado. Fica com ele at eu voltar?

       Claro que fico  prontificou-se Dee.


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       Hugo consultou o seu relgio de pulso antes de continuar.

        Voltarei o mais depressa que puder. Digamos em duas horas.

       Dee observou que o modelo que ele usava era simples, embora de uma boa
marca. A roupa, embora discreta, tinha um corte perfeito. Hugo tinha-lhe contado que
provinha de uma famlia de fazendeiros, mas que preferia ganhar a sua prpria vida a
depender da ajuda financeira dos pais e dos avs.

        Os familiares devem ajudar os jovens  costumava dizer Hugo,  para que
eles se tornem independentes, no dependentes.

       Dee gostaria de conseguir convenc-lo de que fazia questo de cuidar de Peter
e que no havia necessidade de ele tomar para si a responsabilidade de zelar pela sua
sade, mas a certeza de que Hugo se comprazeria em recusar a sua oferta impedia-a
de traduzir os seus pensamentos em palavras.

       O olhar frio que ele lhe dirigira desde o primeiro momento que a vira em frente
 porta era um sinal de profundo desagrado pela sua presena na casa. Compreendia
que o reencontro no tivesse visto nenhum entusiasmo da parte dele. Por outro lado, o
que fizera para merecer aquele desprezo?

      As suas roupas eram demasiado simples, em comparao com as usadas pelas
mulheres com quem costumava sair?

       Mas, afinal, o que importava se Hugo aprovava ou no o seu modo de vestir ou
de viver? Ele no tinha acabado de declarar que no se interessava pelas suas idias
nem pelos seus sentimentos?

       Dez minutos depois de Hugo sair, Dee ouviu Peter tossir e correu para o
quarto.

       Foi um alvio encontr-lo sentado na cama. A cor tinha-lhe voltado s faces e
ele parecia estar bem melhor do que durante a consulta.

        Onde est Hugo?  perguntou ele.

        Foi fechar a conta no hotel e buscar as suas coisas  respondeu Dee, um
tanto enciumada pela preferncia.  Como est se sentindo? Gostaria de beber ou de
comer alguma coisa?

        Estou bem melhor, Dee, obrigado. Uma xcara de ch seria timo.

       Ela preparou a bebida em poucos minutos e levou-a numa bandeja, com alguns
sanduches e um pedao de bolo que trouxera de sua casa. Sabia que Peter gostava de


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bolos caseiros e nunca se esquecia de preparar um, quando resolvia visit-lo.

       Nunca imaginei que voc e Hugo tivessem mantido contato  comentou Dee
com cautela, enquanto servia o ch.

        Para ser sincero, no houve nenhum contato entre ns at h alguns meses
atrs, quando o encontrei por acaso na universidade. Ele veio a Lexminster a negcios.
Fomos convidados para a mesma palestra. Eu achei que era ele, mas no tive a certeza.
Ento, Hugo aproximou-se e cumprimentou-me.

        Hugo mudou  admitiu Dee, embora soubesse que jamais poderia esquec-lo
ou confundi-lo com outro homem. Algumas caractersticas eram demasiado pessoais. E
no estava se referindo s impresses digitais nem aos traos fsicos.  O que  que
ele tem feito?  perguntou com ar de fingida indiferena.

        Ele no lhe contou?  Peter pareceu surpreendido.  Hugo  o executivo-
chefe de um programa humanitrio especial das Naes Unidas. Pelo que entendi, o
objetivo  auxiliar e ensinar as pessoas a tornarem-se auto-suficientes e combater os
prejuzos causados pela seca. Ele est entusiasmado com os estudos que esto
desenvolvendo para um novo tipo de plantio. Se funcionar, representar cerca de
quarenta por cento das necessidades de protenas do indivduo.

         um programa ambicioso.

        Ambicioso e caro  concordou Peter.  A experincia ainda se encontra nos
primeiros estgios. At que prove ser til, envolver altos investimentos por parte de
grupos particulares e de governos internacionais. Alis, uma das atribuies de Hugo 
angariar fundos junto de polticos. Ele confidenciou-me que preferia estar
trabalhando em contato direto com a populao carente, mas eu lembrei-lhe de que ele
sempre possuiu um crebro brilhante e que est a prestar melhor servio aos
necessitados na direo e conduo dos programas de ajuda.

       Peter balanou a cabea.

        Hugo sempre foi obstinado. Houve um tempo em que cheguei a pensar que ele
seguiria a carreira acadmica. Enganei-me por completo.

       Romntica e tambm idealista, Dee tinha tecido uma fantasia de que Hugo era
como um cavaleiro medieval, numa armadura reluzente, pronto a lutar pelos pobres e
oprimidos. Hugo era tudo o que sonhara. Fsica, moral, emocional e sexualmente
perfeito!

       Oh, sim, tambm sexualmente! A sua determinao em manter-se virgem fora
relegada diante da fora da paixo que Hugo lhe despertara.



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        Precisa conversar com Hugo, Dee  continuou Peter, eufrico.  Ele tem
idias muito interessantes.

        Eu diria que os habitantes de Rye tm outras prioridades que no se
relacionam em nada com o valor das protenas.

       O conselho de Peter irritou-a. O que  que ele pensava que Hugo era? Um deus?
Por que deveria ela atirar-se aos seus ps?

       No tivera condies de fazer os exames finais na faculdade, aps a morte do
seu pai, mas os conhecimentos que adquirira nos anos de trabalho prtico tornaram-na
mais do que apta a dirigir a instituio. No precisava dos conselhos nem dos
ensinamentos de Hugo para isso.

        Voc tem um talento inato para finanas  elogiara-a o pai, e ela no tinha
dvidas de que ele sentiria orgulho, se a pudesse ver  frente do trabalho.

       Falsa modstia  parte, Dee sabia que era chamada no apenas de inteligente,
mas de astuta na conduo dos negcios. Ao contrrio do pai, que sofrera o maior
golpe da sua vida ao confiar na honestidade de quem no merecia.

        Dee, no est me escutando?  queixou-se Peter, trazendo-a de volta 
realidade.

       Oh, perdoe-me. Eu distra-me por um instante.

        Eu estava dizendo que deveria falar com Hugo para que ele a aconselhasse.
Sei que o seu pai confiava na sua capacidade, mas eu sempre achei que o peso que ele
colocou sobre os seus ombros  grande demais para que o carregue sozinha. Se tivesse
um marido, seria diferente.

       Dee obrigou-se a no argumentar. Peter estava velho e doente e tinha as
melhores das intenes. Assim como ela, ele no tinha casado. Como no tinha esposa
nem filha, era dela que ele se determinara a cuidar.

       A propsito, conseguiu saber o que se passou com Julian Cox?

      Dee estremeceu.

       No. Por que pergunta?

        Por nada. Hugo e eu estvamos recordando os velhos tempos e eu lembrei-me
do que ele fez ao seu pai.

       O meu pai mal o conheceu  apressou-se Dee a dizer.


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         Talvez no, mas o homem fez parte do conselho de administrao da
instituio por certo tempo e o seu pai contou-me que tinha ficado impressionado com
algumas das suas idias para angariar fundos para caridade  Peter suspirou. Foi
lamentvel que o seu pai perdesse a vida naquele acidente.

      Dee sentiu o ar faltar. Acontecia sempre isso quando algum falava sobre a
morte do seu pai.

       Hugo e eu...

       Vocs falaram sobre a morte do meu pai?  indagou Dee, plida.

      Ou o tom da pergunta ou a sua cor acabaram por chamar a ateno de Peter.

        Hugo abordou o assunto. Estvamos trocando algumas idias sobre a obra
assistencial de seu pai.

      Dee obrigou-se a relaxar. Se o seu corao continuasse a bater daquela
maneira, ela acabaria num hospital.

        Confesso que estou preocupado com essa sua insistncia em inovar. Sempre
trabalhamos com idosos. Ser caridosa  uma coisa, lidar com delinqentes  outra
Peter fez uma pausa.  Louvo a sua preocupao pela juventude, mas a verdade  que
no aprovo o seu plano de usar aquele prdio magnfico para abrigar adolescentes
rebeldes.

       A batalha estava comeando, pensou Dee. Sempre soubera que no seria fcil
convencer Peter a apoi-la nesse sentido. Mas aquele no era o momento para tentar.
Estava preocupada com ele. No sabia exatamente a gravidade do seu estado de
sade.

       O que trouxe Hugo a Lexminster?

       Negcios.

        Sim, mas que tipo de negcios? No disse que a funo dele envolve
aproximao com polticos para tentar conseguir subsdios para os seus programas de
solidariedade?

        Sim. Acontece que a universidade de Lexminster tem acesso a fundos que
nos foram doados no decorrer dos anos e que podem ser usados ao nosso critrio.

       Estou ciente disso  afirmou Dee.

       Bem, Hugo espera que a universidade concorde em doar-lhe parte desses


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fundos.

       Mas a finalidade principal desse dinheiro no deveriam ser bolsas para
estudantes?

       Hugo foi um bolsista  lembrou-lhe Peter.

      Dee franziu o rosto. Peter era um dos responsveis pelo destino daqueles
fundos. A sbita aproximao de Hugo no seria to altrusta quanto parecia?

       Ela seria capaz de colocar as mos no fogo pelo Hugo que conhecera, mas
aquele no estaria a usar um fato caro nem uma fragrncia discreta e exclusiva.

       A vontade de Dee era alertar Peter para os interesses de Hugo, que talvez no
fossem to inocentes quanto ele acreditava. Algo a impedia, contudo, de expressar as
suas dvidas. Afinal, pelo comportamento de Peter, era bvio que, para ele, Hugo
jamais cometeria um erro.

       Se ela ainda precisasse de um sinal para decidir sobre o seu prximo passo,
Peter deu-o quando a campainha soou um minuto depois.

        Deve ser Hugo!  exclamou ele com evidente prazer.  Por favor, v abrir a
porta e pea-lhe que suba imediatamente.




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       Captulo 3



        Como est Peter?  perguntou Hugo assim que Dee abriu a porta.

        Embora eu no seja mdica, como Jane Harper, posso garantir que ele
passou bem depois que voc saiu.

       No  surpreendente como a memria nos prega peas?  ironizou Hugo.
Eu lembrava-me de voc como uma mulher inteligente e sensvel.

        A sua memria no o enganou  Dee retribuiu a ironia.  Eu sou
suficientemente inteligente para desconfiar da sua presena na casa de Peter,
justamente no momento em que ele precisa de ajuda.

      Um brilho de raiva passou pelos olhos de Hugo. Um brilho que nada tinha a ver
com o desejo de antes. Dee no queria que aquele tipo de pensamento lhe viesse 
mente, mas no conseguiu evitar.

        Se estou aqui  porque me preocupo com ele e sei que no est em condies
de ficar sozinho.

        Peter no est sozinho; ele tem-me a mim  protestou Dee.

       Hugo estreitou os olhos.

        No foi o que ele me disse. Soube que h duas semanas que no o visita.

        Eu venho aqui sempre que posso...

       Ento devo entender que outras pessoas tm prioridade sobre o seu tempo?
 interrompeu-a Hugo.

        No se trata disso!

        Seja sincera, Dee. No se mudaria para c para cuidar dele.

        No poderia, mas tenho a certeza de que ele iria para Rye para ficar comigo,
se no tivesses resolvido aparecer de uma hora para a outra.

        Oh, sim, claro que sim. O pobre aceitaria, por no ter opo. Sabe que Peter
adora este lugar Este  o seu lar. Os seus livros, as suas coisas, as suas memrias, a
sua vida, tudo est aqui.




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       Eu sei disso, mas voc no pode ficar com ele para sempre, certo?

        Como devo estabelecer-me na Inglaterra e no h perspectivas de uma
mudana a curto prazo, nada me impede de fixar residncia em Lexminster.  uma
cidade de fcil acesso e tem um aeroporto. No  o caso de eu ficar incomunicvel,
certo?

        Pretende morar permanentemente em Lexminster?  perguntou Dee,
atnita. Algo que no passou despercebido a Hugo, pelo olhar que lhe dirigiu.

       Algum problema? No a agrada a idia de me ter por perto?

       No, no me agrada  confessou Dee, abalada demais para ponderar sobre o
seu comportamento.

        Posso saber por qu? Ou melhor, deixe-me tentar adivinhar. Por acaso teria
a ver com...

       Ento, antes que Dee pudesse imaginar o que Hugo tinha em mente, ele largou
tudo o que carregava e prensou-a contra a parede. O modo como apertou os seus
braos com as mos e o seu corpo contra o dele foi to forte, que o seu calor a
invadiu.

      Antigamente, um gesto como aquele a teria excitado a ponto de descontrol-la.
O sexo com Hugo sempre fora apaixonado, explosivo. Anos se passaram aps a
separao, at que ela conseguisse dormir sem sonhar que estavam fazendo amor.

      Agora, por maior que fosse o antagonismo entre eles, o seu corpo estava
tentando reagir como antes. No esforo de autodomnio, Dee sentiu que tremia.

       A boca de Hugo estava quase encostada  sua. No se atrevia nem sequer a
respirar, com medo de que a distncia diminusse ainda mais.

      De repente, ele deslizou as mos pela sua blusa.

 linda e macia. Deve ter custado caro. No se importava com luxo, quando
nos conhecemos.

       Foi um presente  defendeu-se Dee.

       De seu marido?

       De onde tirou essa idia?  protestou finalmente Dee.  No tenho marido
nenhum.




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        No?  ele estreitou os olhos.  Por acaso ele se recusou a jogar o seu jogo,
ao contrrio do que fez comigo?

       No. Eu...

      Dee gemeu ao ser impedida de continuar. O som deveria ser o de um protesto,
mas h tanto tempo que ela no era beijada, que no conseguiu permanecer impassvel.
Os seus lbios entreabriram-se para Hugo e os seus braos procuraram enla-lo pelo
pescoo.

       A sua reao foi assustadora. Hugo deveria estar pensando que ela seria capaz
de morrer por ele. O que estava acontecendo? A nica explicao plausvel era que o
seu corpo tinha sentido mais falta de um contato masculino do que imaginara. Afinal,
ela tinha permanecido celibatria desde o rompimento com Hugo. No podia ser
saudade.

        A impetuosidade do beijo e do abrao foi dando lugar a carcias ternas e
suaves. Dee ouviu um murmrio escapar da sua boca ao ter os lbios delineados pela
lngua de Hugo.

       Disse que no tem marido... D para notar.

      Dee voltou a si no mesmo instante e empurrou-o.

        Sei que as mulheres se tornam mais sensuais quando sentem que os anos de
juventude esto ficando para trs. Talvez seja essa a explicao  ele provocou-a.

       Mas voc continua a preferir as garotas novas, suponho eu.

      Dee sentiu-se abalada pelo seu prprio comportamento, pelo turbilho de
emoes que a devastava. O que lhe dera para dizer aquilo? No tinha nenhum direito
sobre Hugo. Ele deveria estar pensando que ela estava com cimes.

       A minha preferncia no lhe diz respeito  retorquiu Hugo.  H quanto
tempo est divorciada?

       No estou divorciada!  respondeu Dee.  Como posso estar divorciada, se
nunca me casei?

        Nunca se casou?  daquela vez foi Hugo quem se mostrou perplexo.  Mas
disseram-me... Soube que se casou e teve um filho.

       Dee pensou por um momento. Uma de suas primas tinha-se casado no ano
seguinte ao rompimento do seu noivado e, um ano depois, nasceu o seu primeiro filho.
Ele deveria ter oito anos.


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        Parece que a notcia foi deturpada, no?  isso que acontece a quem d
ouvidos a boatos. No estou casada, no tenho filhos e no sou vtima de desequilbrios
hormonais.

        O seu sonho era ter filhos. Esse era o nosso principal ponto de discrdia. Eu
queria que esperssemos alguns anos para iniciarmos a nossa famlia, mas voc no
teria se importado, se engravidasse antes mesmo do casamento.

       Enquanto Hugo falava, Dee tocou instintivamente o local onde antes ostentara a
aliana que Hugo lhe dera.

        Bem, ao menos continuamos a ter algo em comum  ironizou Dee.  Nenhum
de ns casou nem teve filhos.

        Temos algo mais em comum que no mencionou  o modo insistente como
Hugo olhou para a sua boca fez o seu corao acelerar-se.  Ambos trabalhamos em
prol dos menos favorecidos, angariando fundos para instituies beneficentes.

      Houve uma pausa. Quando voltou a falar, Hugo deu um passo em direo 
escada.

        Vou subir e dar uma olhada em Peter.

       Dee no conseguiu responder. Parecia ser novamente a adolescente que Hugo
derrubara da bicicleta ao virar uma esquina a caminho do local onde Peter daria uma
palestra. Uma palestra, alis, que eles no chegaram a ouvir. At que Hugo a ajudasse
a levantar e a examinasse para ter a certeza de no ter causado nenhuma fratura ou
entorse e a levasse para tomar um caf, a palestra tinha acabado.

       E o namoro comeado.

       Meia hora depois, Dee despediu-se de Hugo e de Peter. Queria chegar a casa
antes do anoitecer. Mas arrependeu-se durante todo o trajeto de volta. O calor e a
claridade do sol provocaram-lhe uma incmoda dor de cabea. Ou a causa seria outra?

       No conseguia entender como pudera reagir com tanta intensidade ao beijo de
Hugo. Era uma mulher, no uma adolescente. Sabia controlar-se. Mas no fora essa a
imagem que mostrara a Hugo. No seria de admirar, se ele estivesse rindo dela
naquele instante.

       Humilhada e zangada consigo mesma, Dee voltou a si com o som estridente de
uma buzina. Assustada ao perceber que teria batido no carro da frente, se o
motorista do carro de trs no a tivesse alertado, Dee diminuiu a velocidade e forou-
se a concentrar-se no volante e na estrada.



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       Estava sentindo vergonha de si mesma. Em vez de se preocupar com a sade de
Peter, s conseguia pensar nos problemas que viagens mais freqentes acarretariam.
Aquela seria a hora certa de Peter renunciar ao seu cargo na instituio, para que ela
tivesse mais autonomia em matria de programas de ajuda e na distribuio dos
fundos. Mas onde estava a coragem para abordar aquele assunto?

       Provavelmente, teria de pedir a Hugo que colaborasse com ela. Seria um golpe
duro para o seu orgulho, mas a sua obra de caridade era mais importante.

       A dor da saudade golpeou-a mais uma vez.

       A polcia tinha concludo pela morte acidental do seu pai. Muitos, porm,
acreditavam que a hiptese mais provvel fora suicdio. Ningum comentou aquela
opinio abertamente e o assunto nunca sequer foi tocado diante dela. Mesmo assim,
aquela idia perseguiu-a em pesadelos dia e noite, por muitos anos.

       Recusava-se a acreditar na hiptese do suicdio. O seu pai no tinha tirado a
sua prpria vida. Ele no tinha destrudo a sua reputao. Ele no era igual a Julian
Cox!

       As comportas foram abertas e as memrias inundaram-na. No havia como
cont-las. Por sorte, faltava pouco para chegar a casa.

       Julian Cox, o seu pai e Hugo: aquelas eram as trs sombras do seu passado. A
mais terrvel, contudo, embora estivesse ligada a Hugo, no tinha sido mencionada. Era
a sombra do amor e da felicidade que eles tinham compartilhado.

       As lgrimas contidas durante anos foram derramadas por fim.

        Hugo, por que voltou?

       O sol tingia o cu de cor-de-rosa e de violeta, quando Dee conseguiu estacionar
o carro diante da casa onde tinha nascido.

       Seguiu diretamente para a sala e para o bar, onde se serviu de uma dose de
usque. No tinha o hbito de beber. Mas naquele dia, excepcionalmente, precisava de
algo que a acalmasse e ajudasse a bloquear a ansiedade que lhe oprimia o peito.

       Ao ver a garrafa, contudo, Dee desistiu do seu intento. No se podia permitir
ser vulnervel. Endireitou os ombros e encaminhou-se para a cozinha. Uma xcara de
caf iria reanim-la. Ligou a cafeteira e sentou-se, enquanto esperava. Os devaneios
assaltaram-na em seguida.

      O seu pai fora um homem de princpios rgidos. Considerava o orgulho uma das
suas maiores qualidades, mas o que amava acima de tudo no mundo era a filha. Dee


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nunca duvidou nem sequer por um segundo do seu amor. O fato de ele ser calado e no
ser inclinado a demonstraes de afeto nunca a abalou.

       Aps a morte da sua me, embora ela ainda fosse bem pequena, o seu pai
agradeceu, mas no aceitou que outros tentassem dar palpites quanto ao seu modo de
educ-la. Criou-a completamente sozinho. No contratou nem sequer uma ama para
ajud-lo. Nem a matriculou num colgio interno quando ela atingiu a idade de iniciar os
estudos, para que no se separassem.

       Talvez a tivesse criado aos moldes antigos. Talvez a tivesse transformado
numa pequena adulta quando ainda era criana. Talvez o seu sentido de dever fosse
exacerbado por influncia da educao que ele lhe dera e no soubesse divertir-se
como os outros. Apesar das crticas, apesar de tudo, ela sempre se sentira amada e
fora uma criana feliz.

       Aquilo no significava que ele tinha conseguido fazer o papel de pai e de me.
No foram poucas as vezes que Dee sentiu falta da presena materna. Outras tantas
vira-se tentando imaginar como teria sido a sua vida e o seu modo de ser sob a sua
influncia.

       O caf ficou pronto e Dee serviu-se de uma xcara, que levou para o escritrio.

       As anotaes encontravam-se sobre a escrivaninha. O seu plano era ambicioso,
admitia. Alguns iriam cham-la de imprudente, de visionria, mas ela no desistiria.
Estava disposta a lutar pelas suas idias. Inclusive junto de Peter.

       Embora tecnicamente Peter e ela tivessem o controle das finanas da
fundao, o seu pai tinha estabelecido que, moralmente, ela precisaria levar em
considerao as opinies dos demais membros do conselho de administrao com parte
das doaes, se no com todas.

       Dee queria criar oficinas e atelis onde os jovens poderiam aprender um ofcio.
Como o milionrio filantropo Ward Hunter, o marido da sua amiga Anna, fizera na sua
cidade no Norte de Inglaterra.

      Ao saber do entusiasmo de Dee pelo seu trabalho, Ward procurou-a para lhe
oferecer toda a ajuda de que fosse necessitar quando montasse as oficinas. Antes,
porm, dependeria de Dee convencer o conselho de administrao a apoi-la.

       O local j estava reservado. Caso a sua idia fosse aceita,  claro.

       A confiana de Dee no sucesso do projeto era tanta, que estava disposta a
fazer um vultuosa doao da sua conta pessoal. O nome da instituio j estava
escolhido. Seria o do seu pai.



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       Na semana anterior, quando se encontraram, Anna, sempre doce, gentil e
perspicaz, certamente notou a sua emoo quando ela lhe mostrou as roupinhas que
tinha acabado de comprar para o enxoval do seu beb. E perguntou-lhe, com extrema
cautela, se nunca pensara em casar e ter a sua prpria famlia.

      A sua resposta foi um sorriso triste e uma desculpa sobre ser autoritria
demais, do tipo que os homens preferiam guardar distncia.

       Anna,  claro, no concordara, mas no insistira no assunto, ciente de que Dee
deveria ter problemas que preferia no revelar.

       Dee realmente no gostava de conversar sobre aquele assunto. Como dizer s
pessoas que o seu maior sonho era ter um marido e filhos, mas que no seria capaz de
casar sem amor? Que s se entregaria a algum a quem pudesse confiar os seus
segredos, as suas esperanas e os seus medos? Era por isso que no esperava casar-
se. Esse algum no existia.

       Nunca seria capaz de confiar a outros o seu mais ntimo segredo. Um segredo
que no era realmente seu. Um segredo que significaria uma traio ao homem a quem
devia a sua lealdade eterna: o seu pai.

      S um homem tivera a hiptese de ser esse algum. Hugo.

       De vez em quando tenho a impresso de que ama o seu pai mais do que a mim
 queixava-se Hugo, ciumento, todas as vezes que ela o deixava para passar o fim-de-
semana com o pai.

        No  uma questo de amar mais  tentava explicar ela.   um amor
diferente.

       Hugo no era capaz de entend-la. O seu relacionamento com os pais era
completamente distinto. Para comear, ele tinha ambos: um pai e uma me. Tambm um
irmo mais velho e duas irms. Conforme a tradio inglesa das classes privilegiadas,
ele estudara num colgio interno. O elo entre Hugo e a famlia, portanto, nunca fora
to forte como o dela com o pai.

       Dee tomou um gole do caf e segurou a xcara com ambas as mos para sentir o
seu calor. No adiantava insistir. No estava com cabea para trabalhar. Ver Hugo
depois de tanto tempo fora uma surpresa. Muito mais. Um choque. E o gosto do seu
beijo ainda estava na sua boca...




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       Captulo 4



       Hugo era um dos estudantes mais cobiados na universidade. As garotas
suspiravam quando ele passava.

        J pensaste como deve ser bom ser beijada por um homem como aquele?
disse uma das suas colegas, pouco antes de Hugo e Dee se conhecerem.

       Dee, que no era do tipo de sonhar nem de sair com rapazes, fez um movimento
indiferente com os ombros.

        Bolas, o que eu no daria para ficar uma hora sozinha com ele!  continuou a
amiga, e olhou para Dee.  Ora, diga alguma coisa! At quando pretende fingir para
voc mesma que beleza e masculinidade no a afetam?

        O que quer que eu diga? J no disse que ele  bonito?

        Bonito?  s isso que diz?  insistiu Mandy.  Hugo Montpelier  a
perfeio em forma de homem. Ele... Cus, ele est olhando para ns. Dee, ele est
olhando para ns!

       No, no est. Apenas est tentando proteger os olhos da luz do sol. Deixe o
rapaz em paz, Mandy! No v que ele est mais preocupado em remar do que em
namorar contigo?

       Dee no entendia o que estava acontecendo com ela. O normal seria concordar
com a amiga. No andavam todos sempre falando sobre os rapazes da universidade?
Por que motivo, ento, a irritara que Mandy no tirasse os olhos de Hugo Montpelier?
E porque  que o seu corao passara a bater mais rpido, quando tambm lhe dera a
impresso de que ele estava olhando para elas?

        Oh, acho que morreria, se ele viesse falar comigo. No conheo ningum mais
sexy do que Hugo. O homem que poderia ter qualquer mulher ao seu lado, mas que no
 dado a casos amorosos nem tem namorada. Eu soube que uma das alunas do terceiro
ano o convidou para sair e ele recusou, com a desculpa de no ter tempo. Uma outra,
em contrapartida, que est em Letras, contou-me que ficou com ele na festa de
confraternizao do final do ano passado e que foi to incrvel, que ela quase teve um
orgasmo ao seu simples toque.

       Dee no respondeu. Era uma jovem normal e moderna, mas a sua educao no
permitia certas liberdades nem comentrios. J tinha sado com alguns rapazes e sido
beijada. Nada mais. Nunca permitiria avanos, enquanto no tivesse a certeza de que


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estava apaixonada a srio e de que os seus sentimentos eram correspondidos.
Aventuras que envolvessem sexo casual e incurses em guas rasas de curiosidade
nesse sentido no eram para ela. Ela tinha sido feita para mergulhos profundos em
mares que exigiam entrega total de ambos os lados. Entrega e amor.

       Aquilo no significava,  claro, que fosse imune  aura de masculinidade que
vibrava ao redor de Hugo Montpelier. Uma aura que, estranhamente, ele no exibia de
propsito. Pelo contrrio. Parecia valer-se dela como um meio de proteo.

       Ouvia comentrios e suspiros por parte das suas colegas todos os dias. As
declaraes falavam de fantasias que iam das mais inocentes s mais obscenas.

       Naquele ambiente carregado de erotismo, Dee teve os seus conhecimentos
sobre sexo expandidos de tal forma, embora continuasse virgem, que chegou a sentir-
se chocada.

        Uma vez ouviu uma fantasia de duas colegas que questionavam se Hugo teria
energia suficiente para satisfaz-las e ser saciado por elas, se os trs se deitassem
juntos.

        Eu li numa revista  continuou outra,  que os homens em geral tm esse
tipo de desejo. Seria uma espcie de teste  sua virilidade.

       Dee no respondeu. Sexo em grupo poderia ser aceitvel para outras garotas.
No para ela. E algo lhe dizia que Hugo Montpelier era da mesma opinio. A sua vida
pessoal era algo que ele preservava. Nunca ningum fizera afirmaes que a levassem
a acreditar que fosse um libertino.

       No acreditava que fosse verdade que ele tivesse ficado com uma garota na
festa do ano anterior. Descobriu-se mais tarde que ela era uma amiga de uma amiga e
que eles apenas conversaram e danaram. E que a garota em questo estava de
casamento marcado. Uma outra vez, quando disseram que Hugo tinha uma namorada, a
jovem era filha de um dos professores e no ms seguinte partiu para os Estados
Unidos, onde pretendia viver permanentemente.

       Precisamos fazer um trato  props uma das colegas.  Aquela que
conseguir sair com ele ter de fazer um relatrio completo s outras....

       Dee afastou-se do grupo naquela parte da conversa. No era puritana, mas no
gostava de ouvir descries que envolviam a intimidade das pessoas. Muito menos de
faz-las. No acreditava que fosse do tipo que Hugo pensaria em convidar para um
encontro. Mas se isso acontecesse, guardaria total segredo.

      Trs dias depois, como se o destino tivesse ouvido os seus pensamentos e



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decidido dar-lhe uma lio, Dee foi obrigada a reconhecer o seu engano.

      L estava ela, andando de bicicleta, ou melhor, tentando no cair nem atropelar
ningum com a bicicleta que tinha alugado, quando Hugo virou uma esquina, correndo.

       Nem ela nem a bicicleta tiveram chances. Alm de muito alto, ele era um
esportista. Ela, alm de ser mais baixa do que ele, era magra. O resultado foi
inevitvel. Tanto Dee quanto a bicicleta foram para o cho.

       Sem fazer caso da velha bicicleta, ele ergueu-a e examinou-a dos ps  cabea
para se certificar de que no tinha ferimentos. Enquanto fazia isso, Hugo no parava
de se desculpar com a sua voz grave e profunda, que a fazia esquecer por completo da
queda.

       As mos que a tocaram no podiam ser mais gentis. At mesmo carinhosas. Ele
notou que a blusa tinha se rasgado e que as calas jeans apresentavam manchas. Os
grampos deviam ter voado para longe, pois os cabelos de Dee estavam cados sobre os
ombros. As mos exibiam p e manchas de leo.

        Fora isso, ela estava bem, e foi o que lhe garantiu.

       Graas a Deus!  exclamou Hugo, aliviado.  Por um momento, receei t-la
machucado seriamente.

        Foi um acidente  murmurou Dee. No era justo permitir que ele se sentisse
culpado.

       Olhe, eu tenho um compromisso, mas gostaria de lhe oferecer um caf antes.
Nunca se sabe. As conseqncias de uma queda podem no se manifestar de imediato.

       Dee estremeceu. No por causa da queda, como Hugo poderia pensar, mas por
causa do inesperado convite.

         Oh, mas machucou-se!  observou ele, assustado, ao notar o estado das suas
mos.

        No foi nada  Dee apressou-se a escond-las atrs das costas. Estavam
sujas. No queria correr o risco de ser impedida de entrar no tal caf.

         Deixe-me ver  insistiu ele.

      Antes que Dee pudesse acalm-lo, Hugo segurava as suas mos e examinava-as.
O corao de Dee disparou.

         No parecem feridas, apenas sujas  decidiu ele.


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        Eu lhe disse  concordou Dee.  Estou perfeitamente bem.

      O que ele fez a seguir, sim, poderia ser interpretado como um choque. Dee
chegou a perder a voz quando Hugo ergueu as suas mos e se ps a sugar-lhe os dedos.

       Dee pensou que desmaiaria. Tentou protestar, mas a sua voz soou como um
gemido. Mais tarde, ela viria a saber que Hugo no fizera aquilo de propsito. Que o
seu gesto nada tinha de provocante. Por um instante, deixara-se governar pelo instinto
e lembrara-se do modo como a sua me ministrava os primeiros socorros aos filhos
quando viviam no campo: beijando os pequenos ferimentos.

        Todas as fmeas fazem isso com os filhotes  disse ele.

       Ela engoliu em seco.

        Sim, mas voc no  a minha me.

        No  ele sorriu.  No sou a sua me  em seguida, afastou a blusa
rasgada e olhou  altura dos seios, o que fez Dee enrubescer at  raiz dos cabelos
por no estar a usar suti naquele dia.

       Embora aquela parte do campus costumasse ser movimentada, no havia
ningum ali naquele dia. No houve testemunhas, portanto, do gemido virginal de
prazer que Dee deixou escapar, nem do olhar subitamente possessivo de Hugo.

      Nenhum dos dois tivera segundas intenes. Simplesmente aconteceu. Hugo
esqueceu por completo a palestra a que deveria estar a assistir. Assim como ela.

       Dee acompanhou-o em silncio ao caf. Antes de se afastarem do local, Hugo
tinha erguido a bicicleta, apoiando-a contra uma parede. Por certo, ela teria de pagar
o conserto ao proprietrio, mas aquilo no era importante em comparao  felicidade
proporcionada pela queda.

       O caf onde Hugo a levou era pequeno e escuro e estava impregnado de fumo
de cigarros. Hugo no parou. Levou-a para um canto, vazio e respirvel, e ambos se
acomodaram numa espcie de alcova protegida de olhares curiosos.

       Ele pediu um cappuccino para ela e um caf expresso para ele.

         Habituei-me a tom-lo puro e forte quando estive em frica durante as
frias, fazendo um trabalho de assistncia  informou-a ele.

       Foi uma frase simples, mas que serviu como base para o que viria a tornar-se
um relacionamento ntimo e intenso.



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       No foi difcil para Dee baixar a guarda e expressar o seu interesse natural e
entusistico pelo trabalho que ele fazia. Quando poderia esperar que o jovem mais
cobiado da faculdade partilhasse das mesmas idias que ela?

       Com Hugo, ela pde ser autntica. A comunicao foi espontnea. No foi
preciso estudar os gestos nem as palavras, como aconteceria se estivesse conversando
com outro homem, preocupada em evitar insinuaes sobre praticarem sexo.

       Com Hugo, mais tarde, corresponder aos beijos e carcias foi algo natural. Os
seus instintos diziam-lhe que estava fazendo o que devia, para que a satisfao fosse
mtua.

       Tomaram no apenas um caf, mas trs, esquecidos por completo da palestra
de Peter.

        No quero deix-la ir  disse Hugo aps pagar a conta.  Tenho muito para
lhe dizer e para descobrir sobre voc. Quero que me conte a sua vida desde que
nasceu.

      Dee sorriu, corada de prazer.

       Precisaramos no mnimo de uma noite inteira.

       Ela viu o sorriso que se estampou nos lbios de Hugo e corou ainda mais. No
pde evitar que a sua imaginao a surpreendesse com uma cena de Hugo tomando-a
nos braos e despindo-a entre beijos.

       Aposto que seria uma noite mgica  murmurou Hugo.

      Era a oportunidade que qualquer garota experiente da faculdade aproveitaria,
pensou Dee. Ela, no entanto, s conseguiu balbuciar:

       No posso. No fao essas coisas.

       Ele fitou-a em silncio. Pouco a pouco, os seus olhos pousaram na boca, nos
cabelos e, finalmente, nos seios de Dee.

       Nunca?

      Sem saber onde encontrara coragem, Dee sustentou o olhar com firmeza.

       Nunca.

       A tribo com a qual trabalhei no ltimo Vero tem um costume interessante.
Embora as garotas tenham de casar com os homens impostos pelo pai, elas tm o



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direito de escolher aqueles que sero os seus primeiros amantes. Essa entrega 
considerada uma grande honra. O maior presente que uma mulher pode dar a um
homem. Eu estou de pleno acordo com esse costume.

      Um novo sorriso surgiu nos lbios de Hugo.

        Alguns homens,  claro, so mais impacientes que outros. Incapazes de
esperar at que sejam escolhidos, muitas vezes tentam seduzir as garotas que
escolheram com presentes e com beijos.

      Dee estava to fascinada por Hugo, que no se deu conta de que os seus lbios
estavam entreabertos, como se esperassem por um beijo.

       Ouviu-o respirar fundo. De repente, como se uma sbita idia lhe tivesse
ocorrido, Hugo sorriu.

        Que acha de jantarmos juntos esta noite?  ela hesitou e ele apressou-se a
dizer:  No lhe darei motivos para preocupao, prometo. No ficaremos a ss.
Pretendo lev-la a um lugar pblico, para que nenhum de ns corra perigo. Em algumas
tribos na frica  continuou Hugo,  quando um homem e uma mulher se amam, eles
pertencem-se. Ele  totalmente devotado a ela e ela entrega-se sem reservas a ele. O
amor que sentem um pelo outro  considerado sagrado, se ela conceber na primeira
vez que se unirem. Na nossa civilizao os costumes so diferentes. Eu sei que no
seria capaz de parar, se a tivesse nos meus braos. Eu iria me entregar ao instinto
mais bsico de um homem, que  penetrar a mulher o mais profundamente possvel.
Dizem que a natureza age dessa forma para ampliar as chances de reproduo. No
nosso caso, no entanto, seria o pior que nos poderia acontecer neste momento. J vi
muitos casais sem condies de continuar com os estudos, por causa de um filho no
planejado.

      Dee estava abalada demais com a sucesso dos acontecimentos para fazer
algum comentrio. Parecia que tinha cado num abismo e via toda a sua vida passada,
presente e futura diante dos olhos, numa questo de minutos.

       Hugo e ela mal se conheciam. As palavras de Hugo soariam absurdas noutras
circunstncias. No entanto, no seu ntimo, ela sabia que tudo era simples e natural.
Fora feita para Hugo e ele para ela.

       Ele estava certo no seu ponto de vista. Uma gravidez estava fora de questo.
Por mais que ela desejasse um beb, era cedo demais.

        Entende o que estou tentando lhe dizer?  perguntou Hugo.  Um jantar 
tudo o que posso oferecer-lhe esta noite, embora no seja o que realmente gostaria
de lhe dar. Aceita?


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        Sim. Adorarei jantar contigo.

       Naquela mesma tarde, depois que se separaram, Dee marcou uma consulta com
o ginecologista que as suas colegas lhe indicaram para que ele a orientasse sobre
mtodos anticoncepcionais.

        No deve confiar essa responsabilidade inteiramente ao seu parceiro
ensinou-a uma das suas colegas de quarto, que tomava a plula.  Afinal, o corpo  seu
e  voc quem deve decidir sobre o momento de engravidar.

        Eu no concordo  disse outra.  A responsabilidade  dos dois. No fazem
o beb juntos?

      Juntos... Dee mal podia acreditar que Hugo realmente tivesse comparecido ao
encontro.

        A casa  muito bonita  comentou ele enquanto Dee fechava a porta da
frente.  O aluguel deve ser caro, mesmo que a divida.

        No  alugada. Eu a comprei com a ajuda de meu pai. Foi um bom
investimento. Quando me formar, poderei alug-la e o aluguel cobrir a hipoteca. Alis,
estou pensando em comprar mais alguns imveis na cidade. Tenho a certeza de que
nunca me dariam prejuzo. Antes, porm, preciso da permisso de meu pai para
movimentar as minhas reservas especiais.

       A expresso de Hugo tornou-se sria.

        Da maneira que fala, parece ser filha de um milionrio.

       Dee hesitou. No costumava abrir-se com as pessoas, principalmente com
desconhecidos, a respeito da sua vida pessoal e da situao financeira do seu pai. Com
Hugo, porm, sentia-se  vontade. No imaginara que ele pudesse ficar constrangido.
Pelo seu modo de se expressar, nunca lhe passara pela cabea que ele no pertencesse
a uma famlia abastada.

        A minha famlia possui terras, mas no tem dinheiro  explicou Hugo antes
que ela precisasse perguntar.  A nossa rvore genealgica descende dos
conquistadores normandos. No nos falta nada, mas nenhum de ns jamais pde contar
com reservas especiais.

        O meu pai tomou essa precauo  justificou-se Dee,  porque sem ele, eu
no terei ningum.

       Dee gostaria de mudar de assunto. Com tanto em comum entre eles, por que
falar em dinheiro?


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        Eu entendo  concordou Hugo por fim.  Se fosse minha, eu tambm
desejaria proteg-la. Admiro-me que ele tenha permitido que se matriculasse numa
faculdade longe de casa. Pelos seus antecedentes, tenho a certeza de que o seu pai
preferiria que vivesse para sempre sob o seu teto e que estudasse com professores
particulares como a realeza.

       Dee estreitou os olhos ao detectar ironia sob as palavras ditas em tom de
brincadeira.

        Ele pode ser um homem aos moldes antigos  admitiu Dee com frieza,
irritada com a crtica que Hugo fizera ao seu pai,  mas eu prefiro mil vezes ter um
pai amoroso, bom, ntegro e honrado a algum...

       A sua voz falhou. No podia permitir que falassem do seu pai na sua ausncia.
Por outro lado, era a primeira vez que saa com Hugo e no queria que discutissem.

      No precisaria de ter receado.

        Desculpe  Hugo alisou gentilmente as suas mos.  Eu no deveria ter
feito esse tipo de comentrio. Acho que fiquei com cimes de seu pai.

      Se Hugo queria que ela recuperasse o bom humor, ele conseguiu. Alis, Hugo
conseguiu mais do que isso ao continuar caminhando pela calada sem lhe soltar a mo.

       Hugo no lhe disse aonde a levaria. Pensou em oferecer o seu carro, mas mudou
de idia aps uma rpida conversa. Como Lexminster no era uma cidade grande,
provavelmente poderiam ir ao restaurante a p.

      A noite estava agradvel, apesar de estarem em meados de Novembro. A
madrugada, contudo, previa a chegada de uma massa de ar frio.

       Caminhar pelas ruas arborizadas era um espetculo de paz e de beleza. As
rvores ainda no tinham perdido todas as folhas, que estavam douradas e vermelhas.
As que j tinham cado forravam o cho e davam maciez aos passos.

       O restaurante que Hugo escolheu era propriedade de uma famlia italiana. Dee
apaixonou-se pelo estabelecimento e pelos seus donos  primeira vista.

      Eles saudaram Hugo como se fosse da famlia. Luigi, o dono, um homem gordo
de cabelos grisalhos, fingiu dar um soco no brao de Hugo. Em seguida, esfregou a mo
e gemeu, fingindo ter-se machucado.

         Esse homem  feito de pedra. Parece um boi... Isto , um touro  corrigiu
ele, e piscou um olho para Dee.



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      Ela corou,  claro. Maria, a esposa de Luigi, censurou-o e abraou Dee.

       No ligue para ele, minha querida  disse em tom maternal.  O seu senso
de humor  assim, infelizmente.

        Ento no concorda que eu seja um touro?  protestou Hugo, aproveitando-
se da brincadeira e flexionando o brao para exibir o bceps.

       Que disparate  disse Luigi com os olhos voltados para a esposa.  No so
os msculos que contam, pois no?

       Dee ouviu-os com um sorriso. Luigi tinha a mesma estatura que ela e Maria era
bem mais baixa. O casal era muito simptico. Nada do que estavam dizendo poderia
ofend-la. Eles falavam de Hugo como se ele fosse um filho, como se fosse um real
orgulho t-lo na sua casa.

       Ela  bela, muito bela  elogiou-a Luigi, terminadas as apresentaes.

       Sim, e  a minha bela  frisou Hugo com um olhar que a levou s alturas.

      Aquela foi uma das noites mais lindas da vida de Dee.

       Comeu e bebeu com um apetite fora do comum. Hugo era perfeito. No
exagerou na bebida e cuidou para que ela tambm no se excedesse. Aquilo a cativou
ainda mais.

      Hugo fazia-a sentir-se segura, protegida, amada.

      Amada.

       Embora tivessem se conhecido naquele dia, Dee tinha a certeza de que era
amor o que sentia por Hugo. Soubera que era ele o homem da sua vida no instante em
que ele a levantou do cho e os seus olhares se cruzaram.

      Era tarde quando deixaram o restaurante. A prometida onda de frio tinha
chegado um pouco antes do previsto e castigava as rvores. Dee sentiu o flego faltar
quando tentou respirar mais fundo.

       Como esfriou!  Dee estremeceu.

       Venha para c  Hugo atraiu-a de encontro ao seu prprio corpo para
aquec-la.

       Aconchegada ao peito dele, Dee riu-se quando sentiu que ele introduzia a mo
no bolso do seu casaco.



                                         35
Capricho do Destino                                                  Penny Jordan

       Agora entendi  gozou ela.  Estava com segundas intenes. Queria
aquecer a sua mo no meu bolso.

        Enganou-se  murmurou Hugo.  As minhas intenes vo mais longe.
Gostaria de aquec-la por inteiro, com o meu corpo, as minhas mos e a minha boca.
No aqui, mas na minha cama  ele fitou-a por um longo momento.  Dee, algum j a
tocou? J foi beijada?

       Claro que sim  protestou Dee. Embora sentisse vergonha, no queria que
Hugo pensasse que era uma criana.  J fui a vrias festas e...

         No  a esse tipo de contato que estou me referindo  retorquiu Hugo com
um sorriso.  O que eu quero saber  se j foi beijada intimamente. Se algum j
acariciou todo o seu corpo no apenas com as mos, mas tambm com os lbios e a
lngua.

       Dee tapou os ouvidos, dividida entre a excitao e o choque diante da cena
sexual quase explcita que Hugo lhe descreveu.

       Carcias como aquelas s tinham existido na sua mente at quele dia. E em
sonhos. No podia negar que j tentara pensar em si mesma numa cama com o homem
que amava. Mas o relacionamento que Hugo lhe descrevera s deveria acontecer
quando os dois estivessem totalmente prontos para fazerem amor, imaginara ela na
sua inexperincia.

       O seu silncio significa que no?  questionou-a Hugo.

       Ela continuou em silncio. Talvez fosse inexperiente, mas no era tola. Era
evidente que a voz subitamente rouca de Hugo sugeria voluptuosidade. Hugo desejava
toc-la, acarici-la, beij-la. Logo. Se possvel ainda naquela noite.

        O corao de Dee pulsou fortemente. A excitao era tanta, que ela sentiu uma
ligeira tontura. Nunca se sentira to poderosa, to mulher.

        Ser muito bom  Hugo aproveitou-se de uma sombra num local protegido de
olhares e abraou-a.  Ser bom para ambos.

       O primeiro beijo foi tudo o que ela esperava que fosse. Suave, excitante,
apaixonado. Hugo abraou-a com fora. Depois introduziu as mos sob o seu casaco,
mas, surpreendentemente, no tentou mais nada.

       Eu gostaria de conhec-la ainda mais  confessou Hugo entre os beijos,
mas tenho medo de no resistir. Lembra-se do que eu lhe disse?

       Sobre gravidez?  respondeu Dee com um fio de voz.


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Capricho do Destino                                                 Penny Jordan

        Hugo fechou os olhos e deixou escapar um grunhido. Alguns instantes depois,
abriu o casaco e a atraiu de encontro ao seu corpo, de forma a que ficassem mais
juntos.

       Foi a primeira vez que Dee sentiu realmente o que a excitao provocava num
homem. A rigidez contra as suas pernas deixou-a sem flego. Tanta paixo despertou-
lhe uma sexualidade que no sabia possuir.

      Os comentrios das suas colegas atingiram-na como um golpe naquele momento.
Um cime louco invadiu-a. No queria nem sequer pensar numa delas com Hugo da
maneira que estavam.

         O que houve?  perguntou Hugo, preocupado.  Estremeceu. Est com muito
frio?

       No foi nada  respondeu Dee com a sua franqueza de sempre.  Lembrei-
me do que uma das garotas disse e fiquei morrendo de cimes de voc.

        Que garota?  perguntou Hugo, curioso. Juro que no h ningum  em
seguida, a sua voz soou rouca e insinuante.  Nunca lhe darei motivos para sentir
cimes.

      Dee sorriu, fascinada. Hugo estava acabando de dizer que a queria e a mais
ningum. O que mais poderia ela desejar?




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Capricho do Destino                                                   Penny Jordan


       Captulo 5



       Um ms depois de se conhecerem, Dee e Hugo fizeram amor pela primeira vez.

        De acordo com as suas convices, Dee no quis tecer comentrios sobre a sua
vida ntima, nem com as amigas nem com ningum. Para evitar comentrios e invejas,
alis, ela nem sequer contou que estavam saindo juntos. Mas como seria de esperar,
numa cidade pequena como Lexminster, uma semana depois do tombo de bicicleta, o
fato era do conhecimento geral.

       S mais tarde  que Dee veio a saber, pelo prprio Hugo, que ele fizera questo
de providenciar para que a notcia se espalhasse, de maneira a que nenhum outro rapaz
se aproximasse da sua namorada.

       No havia outra maneira  explicou ele.  Eu tinha de zelar por voc e por
mim mesmo.

       Dee fingiu que ficou zangada, mas a verdade era que estava to apaixonada por
Hugo, ao final de um ms, que, em vez de protestar, se sentiu envaidecida pelo amor
possessivo que despertara.

       Foram dias excitantes aqueles, embora eles no pudessem extravasar os seus
anseios sexuais como desejariam. O mdico tinha-a prevenido que a eficcia do
mtodo que usava a plula como contraceptivo dependia de um prazo de espera de
algumas semanas. Como Hugo no tolerava a idia da ocorrncia de uma gravidez, eles
decidiram armar-se de pacincia a correrem o risco.

       O Natal estava se aproximando e eles teriam de pass-lo com as suas famlias.
Hugo iria para a casa dos pais, no Norte, e para a casa do av na passagem de ano.

        A tradio manda que o nosso cl se rena nos feriados em Montpelier
House, a casa que pertenceu aos nossos antepassados e onde o meu av reside.
Embora faa muito frio por l, ningum pode deixar de ir. Todos os anos  a mesma
coisa. Os meus pais discutem durante toda a viagem. Tanto na ida como na volta. A
minha me reclama na ida que preferia ir para um lugar mais quente e o meu pai
discute na volta, porque queria passar mais alguns dias com o meu av.

       Hugo balanou a cabea.

         Os meus sobrinhos so muito traquinas. A minha irm mais nova, que no tem
filhos, est sempre acusando a nossa irm mais velha de mimar demais as crianas. As
duas acabam por discutir e procuram-me para ver se eu tomo algum partido  Hugo


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Capricho do Destino                                                     Penny Jordan

sorriu.  Juro, Dee, todos os anos os fatos se repetem.

       Confesso que sinto inveja de voc  murmurou Dee.  Mas tambm passarei
o meu Natal em famlia.

       Ela e o pai iriam para a fazenda do seu av, onde ele tinha nascido e que agora
era administrada pelo seu tio. Os primos estariam l, assim como os demais tios e tias.
Ela gostava daquelas reunies. Seria a primeira vez, pensou Dee, que estaria contando
os dias para ir embora e voltar s aulas, pois aquilo significaria voltar para os braos
de Hugo.

       Para Dee, contudo, os melhores feriados eram aqueles partilhados apenas com
o pai. Eles levantavam-se cedo e arrumaram-se para ir  igreja. Quando voltavam, a
mesa j estava posta para o caf com bolo de frutas e rabanadas. Mas antes, ela
queria sempre abrir os presentes.

       O tempo tinha passado e ela j no era criana, mas ainda gostava de seguir
aquele pequeno ritual.

       Os presentes para o seu pai j se encontravam prontos para serem entregues.
Como ele gostava de nadar e ainda mantinha um ritmo admirvel, decidiu comprar-lhe
um livro sobre aquele esporte.

      Antes de casar, alis, o seu pai tinha vencido um campeonato e recebido uma
medalha de ouro. O livro, que ela encontrara numa livraria em Lexminster, mencionava
o nome dele.

       Ele, como sempre, iria lhe dar aes. Dessas, tambm como todos os anos, ela
poderia dispor como melhor lhe aprouvesse. Tanto poderia gast-las como guard-las.
Tinha inteira liberdade de ao quanto queles pequenos pacotes, que normalmente se
referiam a empresas estrangeiras e desconhecidas, como minas australianas ou
exploraes agrcolas sul-americanas.

      No ano anterior, Dee tivera um sucesso espetacular na sua tomada de deciso.
As aes que optara por conservar tinham duplicado de valor.

       Sentiu a falta de Hugo, como sabia que aconteceria. Estavam habituados a
encontrarem-se todos os dias e amavam-se. Mas nunca imaginara que fosse possvel
sentir tantas saudades de algum, a ponto de causar uma necessidade fsica.

       O seu pai adivinhou que algo no estava bem com ela e no teve dvidas de que
o seu mal era de amor.

        O que se passa contigo, Dee? Espero que no tenha se apaixonado por



                                          39
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nenhum dos seus colegas estudantes...

       Dee desejava defender Hugo e explicar que ele no era um mero estudante,
mas a certeza de que o pai no estava preparado para receber a notcia de que j no
era o nico homem da sua vida a fez se calar.

       Nas ltimas semanas, Dee tinha aprendido muito sobre a vulnerabilidade
masculina. Hugo demonstrara mais de uma vez ter cimes de seu pai. Certamente, o
mesmo se passaria com o seu pai quando soubesse que ela tinha entregado o seu
corao a outro.

       O cime de Hugo enternecia-a sempre. Uma vez, eles estavam no apartamento
dele quando aconteceu uma pequena cena. Costumavam encontrar-se l com
freqncia. Dee gostava de observar a diferena do apartamento de Hugo, em
desordem como seria de esperar de um lugar cuidado apenas por um homem, da sua
casa, sempre arrumada.

       Era no apartamento de Hugo que trocavam beijos e carcias. Nunca tinham
feito amor em toda a extenso do termo, mas faltava pouco para isso. Hugo j
conhecia o seu corpo e ela o dele. Conseguiam satisfazer-se sem o ato final de
penetrao. Mas a verdade era que Dee mal podia esperar por aquele momento.

       Adorava sentir o peso de Hugo sobre o seu corpo, a maciez dos seus cabelos
longos e ondulados no seu rosto e nos seus ombros quando ele a beijava. Adorava
mergulhar o rosto no seu pescoo e aspirar o perfume da sua pele. Mais de uma vez,
Dee pensara em Hugo como um guerreiro renascentista.

       Durante as frias, falaram-se muitas vezes pelo telefone. Ento, quando
faltavam apenas trs dias para o incio das aulas, Hugo telefonou-lhe e disse que no
agentaria esperar.

       No suporto mais. Preciso de v-la.

        Hoje  sexta-feira, Hugo. As aulas s comeam na segunda. Alm disso, est
longe demais.

       No, no estou. Eu resolvi voltar antes e j me encontro em Lexminster.

       Em Lexminster?  repetiu Dee, espantada.

       Sim. Venha para c, Dee. Ou, ento, eu irei at a. S no posso passar mais
uma noite sem v-la.

      Dee pensou na reao de seu pai, se visse Hugo. No. Ele ainda no estava
preparado. Por mais difcil que fosse convenc-lo de que precisaria partir antes da


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data estipulada, seria melhor do que uma visita de Hugo.

        Pela primeira vez na sua vida, Dee sentiu-se alegre no momento de se despedir
do pai. Ia ao encontro do homem da sua vida. Estava deixando a proteo dos braos
do seu pai para a excitao dos braos do seu namorado. Estava finalmente deixando
de ser menina para ser mulher.

        No saia do carro  pediu Hugo quando ela parou na calada.

        No quer que eu saia?  estranhou Dee.  Pensei que...

        Quero que esta noite seja especial  sussurrou ele ao mesmo tempo em que
se acomodava no banco de passageiros.

        Aonde vamos?

       Quando Hugo mencionou o local, Dee no conteve uma exclamao de espanto.

        Ao De Villiers Hotel?  muito caro! Gastar uma fortuna! Por que no vamos
 cantina de Luigi?

        No estou pensando em jantar, mas em pernoitar  retorquiu Hugo.

       Dee quase perdeu o flego.

       O hotel no ficava distante de Lexminster. Na verdade, era uma casa ampla e
luxuosa que tinha sido transformada em hotel. Dee estivera ali uma vez com o pai por
ocasio de um dos seus almoos especiais de aniversrio.

       O hotel era famoso pelas suas recepes de casamento e pelas suas sutes
nupciais. Dee lera uma vez que essas sutes, alm de terem recebido uma decorao
especial, contavam com uma banheira imensa de hidromassagem. Vrios casais
entrevistados afirmaram que pretendiam voltar para l quando fossem comemorar os
seus aniversrios de casamento.

       Ao pensar que Hugo tinha reservado uma sute nupcial para eles, Dee sentiu o
sangue correr to depressa pelas veias que lhe provocou uma pequena tontura.

        No reservou uma sute nupcial, no ?  Hugo sorriu.

       No. No queria que as pessoas soubessem o que pretendemos fazer.
Queria?

        Bem,  claro que no, mas acha que eles tero alguma dvida?




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      Os dois sorriram. Hugo no respondeu. Faria uma surpresa a Dee. Ela
provavelmente no sabia que todas as sutes do De Villiers tinham banheiras de
hidromassagem para duas pessoas.

       Mais tarde, Hugo confessou que lamentava no ter levado uma mquina
fotogrfica para registrar a expresso surpresa de Dee quando o funcionrio do hotel
abriu a porta da sute e apresentou as suas dependncias.

      Assim que ficaram a ss, Hugo dirigiu-se a uma mesa de canto, onde havia uma
garrafa de champanhe dentro de um balde de gelo.

        Pedi que o jantar fosse servido no quarto  avisou-a Hugo.  Antes, porm,
quero fazer um brinde a ns.

      Era maravilhoso e espantoso, pensou Dee. Amava Hugo e sempre se sentira 
vontade com ele. Praticamente pertenciam um ao outro, desde o dia em que se
conheceram. No entanto, de repente, ela estava tremendo, tmida, face  perspectiva
de perder a sua virgindade.

        No conseguiremos beber todo esse champanhe  murmurou Dee, sem saber
o que dizer.

        No da garrafa  respondeu Hugo.  Eu pretendo tom-lo no seu corpo,
gota a gota.

        A imagem proposta teve o poder de desinibi-la. E de fazer Hugo tomar a
iniciativa de beij-la de um modo que lhe provocou um intenso arrepio.

         Ele tinha comeado a desabotoar a sua blusa quando ouviram uma batida 
porta.

       O jantar que Hugo encomendou no poderia ser mais romntico. E mais caro. O
empregado entrou na saleta empurrando um carrinho decorado com flores e velas.
Quando se deteve e mostrou o prato que estava coberto por uma tampa de prata, Dee
viu duas lindas lagostas com morangos silvestres. O vinho branco que as acompanharia
era francs. A sobremesa, a sua favorita, eram trufas de chocolate.

          Satisfeita?  quis saber Hugo quando terminaram de jantar.

         Dee fitou-o com malcia.

          No. E no ficarei at...

          At?  provocou-a Hugo.



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        At senti-lo dentro de mim  sussurrou Dee, mas sem conseguir olhar nos
olhos de Hugo daquela vez.

       Algo que no demorou a acontecer, pois assim que ela disse aquelas palavras,
Hugo levantou-se e abraou-a.

        Dee, no pode imaginar o que faz comigo.

      Enquanto a abraava, Hugo no parava de pedir que ela ficasse bem junto dele,
embora j estivessem abraados.

        Os seus beijos tem gosto de chocolate. No consigo resistir.

       Eu adoro os seus beijos, Hugo.  o nico homem que quero na minha vida.
Quero-o demais.

       Ouviu-o gemer. Era um som excitante, at mesmo atormentado. Ela tocou-o no
pescoo para sentir a vibrao. Quanto mais o tocava, quanto mais o beijava, mais o
queria. Era magnfico sentir a rigidez do seu sexo, uma prova irrefutvel do desejo
que lhe despertara.

       Hugo ergueu-a nos braos naquele momento e carregou-a at  cama. Deitou-a
e apagou as luzes.

       No foi a primeira vez que Hugo a despiu, mas foi diferente. E no momento em
que ele recuou para admirar a sua nudez, Dee estremeceu. A mensagem que leu nos
olhos azuis a fez prender a respirao. Naquela noite, Hugo e ela dariam o passo final
para selarem o compromisso de mtua devoo.

       No havia segredos entre eles. Conheciam os sonhos e as esperanas um do
outro. Sabiam o que queriam das suas vidas e seguiriam juntos os passos que o destino
lhes reservara. Fariam um trabalho memorvel de auxlio aos carentes. Quando
terminassem a faculdade, seguiriam por aquele caminho. Casados.

       Hugo no tinha nenhuma dvida quanto ao futuro. A sua convico no que fazia
era plena e total. Negar-lhe a realizao dos seus planos seria o mesmo que mat-lo.
Ou pior.

        Temos muito a dar aos povos de quem s soubemos tirar at agora. E eles
tm muito a oferecer em termos de cultura. Ns sairemos desse trabalho
engrandecidos no nosso orgulho e na nossa dignidade. O meu pai no concorda com os
meus planos, nem o meu av  confessou Hugo,  mas  algo que preciso de fazer, ou
nunca poderei viver em paz comigo mesmo.


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        Dee entendia Hugo e amava-o cada vez mais pelo seu idealismo, embora aquilo
significasse que no era a nica dona do seu corao e das suas emoes.

       No fundo, Hugo era igual ao seu pai nas suas convices. Nenhum dos dois
prescindia dos seus princpios por nada.

        Agora  sua vez  murmurou Hugo quando terminou de despi-la.

       Lentamente, Dee desabotoou a camisa. Depois abriu o fecho das calas. Ainda
no tinha terminado de tir-las, quando Hugo se inclinou e se ps a beij-la no pescoo,
ao mesmo tempo em que uma das suas mos se fechava no seu seio.

        No vale  protestou Dee.  Eu ainda no acabei.

       Como Hugo no parou de acarici-la e ela no conseguiu conter a reao do seu
corpo, fechou os olhos e enlaou-o pelo pescoo.

       Os lbios de Hugo pousaram nos seus ombros, depois no peito, para terminarem
ao redor dos seios e finalmente nos mamilos. Quando se ps a sug-los, Dee sentiu uma
onda to violenta de excitao, que cravou as unhas nas costas dele.

       Hugo, no entanto, no parou. Pelo contrrio, as suas carcias tornaram-se ainda
mais intensas. Incapaz de se dominar, Dee abraou-o, tremula. Mas no por muito
tempo. Quando deu por si, Hugo tinha-se afastado e estava ajoelhado entre as suas
pernas, curvado sobre o seu abdmen, beijando-o.

       O champanhe permanecia no balde de prata, esquecido. No havia necessidade
de us-lo. A excitao de ambos era mais do que suficiente para tornar o ato de amor
perfeito e inesquecvel.

       As sensaes eram to fortes e erticas que Dee teve de controlar a vontade
de gritar.

       De repente, Hugo olhou para ela.

        Tem certeza de que  isto que quer? Est preparada, Dee?

       Ela fechou os olhos por alguns segundos. Quando tornou a fit-lo, a sua voz
soou rouca de paixo.

        Sim. Oh, sim.

       Os olhares estavam mergulhados um no outro. Hugo e Dee mal conseguiam
respirar.




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        Receio machuc-la  confessou Hugo, hesitante.

       A primeira investida fez Dee contrair os msculos. Mas estava to excitada,
to prxima do xtase que ergueu os quadris de forma a facilitar a penetrao. Hugo
gemeu alto e moveu-se mais para dentro dela.

       Dee no resistiu. Os espasmos assaltaram-na quase que de imediato. Alguns
instantes depois, sentiu o corpo de Hugo enrijecer. Ele disse o seu nome de uma
maneira que a emocionou.

       Depois, enquanto descansavam nos braos um do outro, Dee ouviu Hugo dizer
baixinho:

      Ser melhor da prxima vez. Eu tentarei controlar-me e prolongar o
momento.

       Dee sorriu e aconchegou-o de encontro ao peito.

        Melhor do que foi? Acho impossvel.

         Oh, Dee, eu a amo demais. No deveramos ter-nos conhecido. No deveria
existir. Eu no tinha planos para que isto fosse acontecer. No queria apaixonar-me e,
muito menos, comprometer-me seriamente com uma mulher antes de fazer trinta
anos. Ainda bem que temos as mesmas ambies de vida  declarou Hugo.  Eu no
suportaria se fosse do tipo que quer casar para levar uma vida normal e que eu tivesse
de arranjar um emprego fixo como o meu pai insiste que eu faa. No me interessa
ganhar montes de dinheiro. No poderei dar-lhe uma vida de conforto. Sabe disso, no
? Os nossos filhos tero de aprender a viver aos nossos moldes. Os nossos amigos
diro que perdeu o juzo em escolher-me. O seu pai no aprovar o nosso casamento.

        No concordo contigo  interrompeu-o Dee.  Ele ir admir-lo pelo que
pretende fazer. Ele tambm trabalha em prol de um mundo melhor. Eu no o amaria
tanto, Hugo, se fosse diferente do que . No tenho nenhuma inteno de pedir que
mude os seus planos.

        Ser maravilhoso, no? Temos tanto a fazer juntos, Dee...

       Eu sei  concordou Dee, e piscou-lhe um olho sugestivamente.  Ainda no
terminamos de beber o champanhe e ainda no tomamos banho juntos na banheira de
hidromassagem. Por quanto tempo reservou a sute?

        Apenas por uma noite.

        A noite inteira?  indagou Dee, deliciosamente surpresa.  Quer dizer que
ainda temos muitas horas para aproveitar.


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       Hugo no conseguiu responder, mas fez que sim com um gesto de cabea. No
podia falar. Dee estava cobrindo-o de beijos outra vez.

       Ento no temos nenhum minuto a perder, no ?  ela voltou a provoc-lo.

       No.  claro que no  ele voltou a concordar.




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       Captulo 6



      Dee acordou sobressaltada. O seu corao batia descompassado e a sua boca
estava seca. Dormira profundamente, mas no tivera um sono tranqilo. A sua
sensao era de estar com o corpo entorpecido, como se estivesse sob o efeito de
calmantes. A relutncia em levantar-se a incomodava. Era como se algo estivesse
prestes a acontecer e a cama servisse como proteo.

        Se era a primeira vez que aquilo acontecia? No. Houvera um perodo aps a
morte do seu pai em que o refgio do quarto e da cama exercia o mesmo efeito sobre
ela. Fora preciso armar-se de coragem e lutar para superar a depresso. Repetira mais
de mil vezes a si prpria que agira como devia e que tomara a deciso certa.

       Respirou fundo e empurrou os cobertores. Sentou-se na cama e colocou os ps
no cho.

       O seu quarto era o seu mundo especial e secreto. Um lugar onde ningum tinha
autorizao de entrar. No apenas por ser o seu santurio, mas porque traa a sua
autntica natureza. As paredes estavam pintadas em tom pastel, entre o azul e o
verde, e as cortinas eram de musselina branca. O mesmo tecido adornava o dossel da
sua cama. A colcha, no entanto, de brocado de algodo cor de marfim, era igual  que
forrava a poltrona colocada junto  janela.

      O carpete, tambm cor de marfim, completava o cenrio delicado e feminino.
Quase etreo.

       Dee colocou-se sob o chuveiro e procurou no pensar. Sabia que estava sendo
alvo de duas foras antagnicas.

       Sentia-se impelida a convencer Peter, sem mago-lo,  claro, para afastar-se
do conselho de administrao da fundao e a apoi-la nos seus planos. Hugo seria um
aliado precioso naquele sentido. Mas aquilo significaria uma aproximao, um pedido, e
ela no podia permitir-se nem sequer pensar nele.

       Saiu da ducha, enxugou-se energicamente e ps-se a escovar os cabelos. De
repente parou. J tinha lutado aquela batalha uma vez e vencido. No tinha foras
para voltar quele tempo de escurido e sofrer novamente a perda de Hugo.

       Admitia que estava mais forte agora do que na poca que andava na faculdade.
No sentia remorsos. Fizera o que era certo. Tomara a nica deciso possvel. Mas no
podia enganar o seu corao. Muitas vezes vira-se imaginando como teria sido a sua
vida com Hugo, com um filho nos braos, amando e sendo amada.


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       Hugo, mais do que ela, fora um jovem devotado  sua crena de prescindir da
sua prpria vida em favor do prximo. E ao contrrio dela, negara-se a fazer parte de
uma sociedade materialista. Chamara-a, e ao seu pai de egostas.

        O que espera que ele faa?  perguntara Dee a Hugo numa das vrias
discusses que tiveram.  Que doe tudo o que tem?

      Hugo a chamara de ridcula quando a pergunta fora colocada, mas no
respondeu o que faria no lugar do seu pai.

       Outro detalhe ao qual Hugo se apegava, tanto quanto o seu pai, e nesse
particular ambos defendiam idntico ponto de vista, era de que as pessoas envolvidas
em programas beneficentes no podiam ter os seus nomes ligados a escndalos.

       Dee, ao contrrio, talvez por ser mulher e mais compreensiva, no esperava
perfeio dos seres humanos, que sabia serem vulnerveis e passveis de erros num
momento ou outro da vida.

       Quando terminou de se vestir, Dee reconheceu que no adiantaria tentar adiar
a resoluo do seu problema. O melhor seria enfrentar a situao de frente. Entraria
no seu carro e iria para Lexminster. Alm de visitar Peter, precisava de ter uma
conversa com Hugo.

       O que acontecera com eles no passado no deveria ser levado em conta. Agiria
como se tivessem sido apenas amigos. Conversariam sobre a participao de Peter no
conselho de administrao e ela iria trat-lo com amizade e respeito, mas com fria
distncia.

       Quem visse o seu quarto, porm, antes que fechasse a porta e entrasse no
carro, no diria que a deciso fora facilmente tomada. A cama estava repleta de
roupas e o cho, forrado de sapatos. At que Dee se sentisse satisfeita com o traje,
mudou-o, por completo, quatro vezes.

        Mas valeu a pena. Dee tinha aprendido a importncia da apresentao com o seu
pai. Da aparncia muitas vezes dependia o sucesso de um negcio.

       O vestido bege que finalmente escolhera era simples, mas bonito. Os recortes
laterais facilitavam a movimentao, sem serem provocantes. Ao menos era o que Dee
pensava. Os homens certamente considerariam o espetculo restrito um convite 
imaginao, como algo profundamente ertico.

       O decote era discreto, mas a tendncia de resvalar para um dos lados
propiciava uma ocasional viso do ombro.




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      Os brincos de ouro tinham sido presentes do seu pai e completavam o conjunto,
juntamente com o toque de batom e duas gotas do seu perfume favorito.

       A caminho de Lexminster, Dee passou pela praa central da cidade e ficou
preocupada ao ver um grupo de adolescentes sem fazer nada. Em recente conversa, o
diretor da escola local, que tambm trabalhava como voluntrio na instituio, tinha-
lhe contado que os problemas com arruaas vinham crescendo assustadoramente entre
os alunos.

       Assim como ela, Ted Richards acreditava que os jovens precisavam ter uma
vlvula de escape para as suas energias que fosse construtiva e ao mesmo tempo
saudvel. Mais ainda. Eles necessitavam de ter a sua maturidade e capacidade
reconhecidas e sentir que faziam parte da comunidade onde viviam.

        Quanto mais pensava em dedicar-se a eles, mais importante lhe parecia a
empreitada. Ward, o marido da sua amiga Anna, tinha conseguido um grande sucesso
com os jovens da sua regio. Talvez ele pudesse falar com Peter e convenc-lo a apoi-
la. Se Peter tivesse condies, ela iria convid-lo para conhecer as oficinas que Ward
montara. Seria um bom comeo.

      Era hora de almoo quando Dee chegou a Lexminster. No porta-malas, alm de
uma pasta completa com todos os planos que fizera para ajudar os adolescentes de
Rye-on-Averton, havia uma torta de queijo e um frango assado com arroz e ervilhas.

       Apesar de ter uma cpia da chave da casa de Peter, Dee bateu
automaticamente  porta. Como ningum viesse abrir, ela lembrou-se de que poderia
entrar, mesmo que Peter no a ouvisse.

        Peter, sou eu, Dee  anunciou em voz alta.

      Como o silncio se mantivesse, Dee encaminhou-se para a cozinha. Estava quase
chegando, quando Hugo surgiu  sua frente. O susto por pouco no a fez derrubar os
pacotes.

        Oh, eu no esperava...

       Desculpe se no a atendi de imediato. Estava ao telefone  explicou Hugo.
Peter est dormindo. A mdica esteve aqui e disse que era importante que ele
descansasse. Como o encontrou muito agitado, deu-lhe uma injeo  de repente,
Hugo fitou-a com expresso de censura.  Espero que no o tenha acordado.

       A acusao injusta impulsionou-a a uma defesa.

        Foi realmente necessrio drog-lo?



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        Drog-lo?  Hugo franziu o rosto.  O que est insinuando?

        No estou insinuando nada  protestou Dee.  Mas Peter tem idade e...

        Jane  uma mdica competente. Se ela prescreveu uma medicao
tranqilizante foi porque achou que isso iria ajud-lo.

      O fato de Hugo se referir  mdica pelo primeiro nome provocou um aperto no
corao de Dee.

       Vim tratar de um assunto importante com ele. Lamento que ele no esteja
em condies.

        Precisa falar com ele?  estranhou Hugo.  Ento no est aqui para saber
sobre o seu estado de sade?

 claro que me preocupo com o estado de sade de Peter  respondeu Dee.

        Mas no o bastante para chamar um mdico que o examinasse.

       Uma mistura de raiva e de culpa fez o sangue de Dee subir-lhe s faces.

        Eu j disse que teria cuidado dele...

        Se tivesses tempo  interrompeu-a Hugo.  Sim, eu sei. A propsito, sobre
o que precisa de falar com Peter?

       Dee encarou-o, furiosa.

        O assunto  entre mim e Peter. No lhe diz respeito.

       Ela viu Hugo arquear uma sobrancelha com desdm.

        Ser que no? Isso ir depender de...

       O telefone tocou naquele instante e Hugo afastou-se para atender.

        Exatamente  ela ouviu-o dizer.  No h problema algum. Pode ligar  hora
que quiser. Eu estarei aqui. Posso trabalhar em qualquer parte, desde que tenha acesso
s convenincias da tecnologia moderna. No, eu ainda no lhe contei.

       Dee no era bisbilhoteira. No estava ouvindo a conversa de propsito. Mas
como algo lhe dizia que a sua pessoa estava sendo mencionada, embora o nome no
tivesse sido dito, no resistiu ao impulso de ir at ao hall, p ante p.

        Mas pretendo faz-lo ainda hoje  disse Hugo antes de desligar.


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       Ao ouvir o clique do telefone, Dee apressou-se a voltar para o seu posto. E
antes que Hugo tivesse oportunidade de falar, levantou-se.

      Como no posso ver Peter nem falar com ele, no tenho o que fazer aqui.
Quando ele acordar, por favor, d-lhe lembranas minhas. Trouxe uma torta e...

       No pode ir embora  interrompeu-a Hugo.  Tenho algo para lhe dizer.

       Era o que ela temia. Pelo modo de Hugo falar ao telefone e mais ainda naquele
momento, Dee adivinhou que o assunto no seria dos mais agradveis. Engoliu em seco.
Peter teria revelado a Hugo o escndalo que envolvera o nome do seu pai?

       De que se trata?  indagou Dee com um fio de voz.

       Venha comigo. Prefiro ter essa conversa na sala. As paredes so finas e
estamos bem debaixo do quarto de Peter.

       Dee seguiu-o to ansiosa, que as suas pernas tremiam. Incapaz de encar-lo,
posicionou-se  janela, de costas para ele.

       O que tem de to importante para falar comigo?

       Como Hugo no respondesse, ela se virou. No esperava que Hugo fosse vacilar,
mas foi o que aconteceu.

       Peter e eu tivemos uma longa conversa, depois que voc foi embora.

      O corao de Dee batia to fortemente que ela temeu que Hugo fosse ouvi-lo.
O que tanto receara tinha acontecido. Peter contara a Hugo sobre o seu pai. As
mesmas suspeitas que assombravam Dee e que Peter nunca tivera coragem para
abordar foram reveladas a Hugo.

       Ele contou-me que o seu pai...

       Dee fechou os olhos e esforou-se para no se deixar inundar pela onda de gelo
que tentava engoli-la.

        O meu pai est morto, Hugo  implorou ela.  Tudo o que ele sempre quis
foi ajudar os outros. Ele nunca...

       Dee deteve-se, incapaz de continuar. Alguns instantes depois, respirou fundo e
olhou para Hugo com firmeza.

       O que foi que Peter lhe contou?




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       Ele disse que estava preocupado com as suas idias de alterar o foco de
atuao da obra assistencial fundada pelo seu pai. Peter teme que esteja deixando-se
governar pelas emoes e que tente pression-lo a apoi-la.

        Dee pestanejou. Peter tinha contado a Hugo sobre a obra de caridade que o seu
pai fizera e no sobre a sua morte. E tinha confiado a Hugo os seus temores sobre os
novos planos que ela realmente pretendia propor.

      O alvio foi to grande, que Dee deu uma gargalhada.

        No creio que o assunto seja divertido, Dee  declarou Hugo, srio.  A sua
inteno est clara para mim. Pretende conseguir o apoio de Peter a qualquer preo
para a realizao do seu projeto, mesmo que isso signifique for-lo a agir contra a
sua conscincia.

       Dee raciocinou rpido. O alvio de saber que Peter no abordara a morte do seu
pai com Hugo a fez esquecer a gravidade do problema em que ela estava envolvida.

       Peter no tinha o direito de discutir os nossos negcios contigo  reclamou.
 Ele e eu no somos os nicos membros do conselho de administrao da instituio.
Acho que ele deveria ser mais reservado quanto  nossa atuao.

       Por qu?  Hugo desafiou-a.  Existe algo que eu no deva saber? Ou o
governo?

      A indignao de Dee a fez empalidecer.

       No temos nada a temer por parte de ningum!

       Eu no estava acusando-a  explicou Hugo.  Apenas quis lembr-la de que,
embora seja presidente da instituio, a sua vontade no  soberana. Depende da
aprovao do conselho de administrao. Portanto, no tem o direito de pressionar as
pessoas para concordarem com o seu ponto de vista, seja ele qual for.

        Como se atreve a julgar-me?  protestou Dee.  Por que no diz claramente
o que est pensando? Os desejos do meu pai sempre foram a minha prioridade.

       No  o que Peter pensa  retorquiu Hugo. Dee hesitou. O que estava
acontecendo?

        O meu pai sempre lutou em prol dos habitantes necessitados da sua cidade.
As suas primeiras obras destinaram-se  ajuda dos idosos. Agora, os tempos so
outros. Os jovens esto precisando de mais apoio do que as pessoas da terceira idade
 Dee estreitou os olhos.  Mas nada disso lhe diz respeito, no  verdade? S se
interessa pelas necessidades de povos de pases distantes. O que se passa com a


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populao de Rye, por certo, parece-lhe um simples detalhe  a voz de Dee tornou-se
ainda mais sria.  Os idosos de Rye esto bem amparados. Gostaria de dizer o
mesmo sobre os jovens. Mas eles no tm com que se ocupar. Segundo Ward...

       Ward?  interrompeu-a Hugo.

       Sim, Ward Hunter  explicou Dee.  Ele j colocou em funcionamento, e
com grande sucesso, o esquema que estou estudando para a nossa cidade.

       Peter contou-me tambm que achava que estava sendo influenciada por
algum para romper com a linha de trabalho criada pelo seu pai. Ele...

        As intenes de Peter so boas  declarou Dee,  mas as suas idias so
antigas. Ele no consegue ver o que est acontecendo no presente. Eu preciso ter uma
conversa com o nosso velho professor e faz-lo entender que...

        Ou seja, quer realmente pression-lo a tomar uma deciso que ir contra os
seus princpios  deduziu Hugo.  Eu lamento, Dee, mas isso no ser possvel.

        Por que no?  indagou ela, apreensiva. O estado de sade de Peter tinha
piorado e Hugo estava escondendo-lhe isso?

        Porque esta manh ele nomeou-me seu representante perante o conselho de
administrao e eu...

       No!  protestou Dee. O choque foi to grande, que ela precisou se apoiar
na mesa para no perder o equilbrio.  Peter no pode ter feito isso!

        Se quiser uma cpia do documento, tomarei providncias para que o receba
imediatamente.

       Ento agora  procurador de Peter?

       Sim.

       O mundo ruiu para Dee naquele instante. No apenas pelo fato de Hugo ter
tomado o lugar de Peter no conselho de administrao, mas porque o velho amigo, de
repente, deu provas de que j no confiava mais no seu bom senso e na sua capacidade
de trabalho.

       Lgrimas ardentes queimavam os seus olhos pelo esforo de no derram-las.
Por mais que quisesse sentar-se, ou correr para longe, o orgulho obrigou-a a fingir
indiferena.

      Que ironia! Como pudera pensar em pedir que Hugo a apoiasse no sentido de


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tentar conquistar a simpatia de Peter pelo seu projeto?

        E como seu procurador  prosseguiu Hugo, farei tudo o que estiver ao meu
alcance para garantir que o parecer de Peter seja respeitado e que no o subestime.
Diga, portanto, a esse Ward Hunter que tero de obedecer  maioria. No podem
fazer o que bem entenderem.

        As decises do conselho de administrao no tm nada a ver com Ward
quis explicar Dee, mas Hugo tornou a interromp-la.

       Ainda bem que reconhece isso. Pelo que Peter me contou, parece que anda
usando a conta da instituio como se fosse sua.

       No  verdade!  protestou Dee, indignada.  Tudo o que quero  ajudar
quem est mais necessitado.

       De acordo com o seu ponto de vista.

       Hugo, por favor. Peter est bem-intencionado, mas...

       Mas o qu? Acha que ele j no  capaz de tomar as suas prprias decises?

       No se trata disso.

        Ainda bem que admite. Soube que o conselho de administrao dever
reunir-se em breve para discutir o oramento para o prximo ano. Como representante
legal de Peter, portanto, deverei estar presente.

       No pode!  retorquiu Dee.

       Pode dizer-me por qu?  desafiou-a Hugo.

       Bem, voc tem outros assuntos para tratar. Talvez j no esteja mais aqui.

         No tenho planos de me afastar de Lexminster. No no futuro prximo, pelo
menos. Como estava dizendo h pouco ao gerente do banco onde Peter tem conta, o
meu trabalho possibilita-me viver onde quer que existam eletricidade e linhas
telefnicas. Como Peter precisa ter algum por perto, no vejo razes para no unir o
til ao agradvel. A partir de agora, este ser tambm o meu endereo.

      Um cansao e um frio intensos apoderaram-se de Dee.

       No entende  murmurou.  Peter no entende.

       Pelo contrrio  contradisse-a Hugo.  Voc  que precisa de entender que



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no pode fazer da obra deixada pelo seu pai o seu brinquedo favorito. O fato de ser
presidente no lhe d o poder de controle. Voc e o seu namorado...

          Ward no  o meu namorado  protestou Dee, cada vez mais zangada.

        No? Bem, qualquer que seja o tipo de relacionamento entre vocs, Peter
est preocupado com as influncias que vem sofrendo.

        Peter vive voltado para o passado.  uma pessoa maravilhosa e eu o adoro,
mas as suas idias esto ultrapassadas.

        O conselho de administrao  formado por sete elementos, Dee. Se ele for
o nico a no concordar contigo, no vejo motivos para preocupao.

       Dee fechou os olhos. Sabia que Peter no seria o nico a discordar do seu
plano. Os outros eram de idade aproximada da dele.

         Hugo consultou o seu relgio de pulso.

       Infelizmente, teremos de deixar esta conversa para outra ocasio. Terei
uma reunio em trinta minutos e no quero me atrasar.

       Enquanto falava, Hugo dirigiu-se  porta e a abriu. Ela mordeu o lbio. Estava
sendo tratada como uma candidata a um emprego que no tinha sido aprovada. A sua
vontade era ignor-lo e dizer que no sairia dali enquanto no falasse com Peter. Por
outro lado, aquilo iria coloc-la, talvez, numa situao ainda mais vulnervel do que se
encontrava.

      Endireitou as costas e ergueu o queixo. No daria a Hugo a satisfao de v-la
derrotada.

          At segunda  despediu-se Hugo.  A reunio est marcada para as onze,
no ?

        Sim  confirmou Dee e deu um passo para fora da casa. Nunca tinha se
sentido to humilhada. Como pudera Peter fazer aquilo com ela?

       As suas emoes estavam crescendo como uma bola de neve no seu peito. Temia
no conseguir se controlar. Precisava de se afastar de Hugo depressa.

      Ele a tocou no brao naquele instante e ela recuou como se tivesse sido
queimada.

       Peter est fazendo isto para seu bem e do seu pai  murmurou Hugo.  Ele
est preocupado. Considera a sua posio no conselho de administrao como algo


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sagrado.

        Acha que eu no?  reagiu Dee.

        Acontece que o seu pai destinou a sua obra a um alvo especfico e a minha
opinio...

       A sua opinio no me interessa  Dee recusou-se a continuar ouvindo.  No
sabe nada a respeito do meu pai, nada sobre os seus desejos e as suas crenas.
Desprezava-o porque era rico e no o tolerava porque eu o amava.

       Quando Dee terminou de falar, estava vazia.

        Est sendo injusta  protestou Hugo.  Jamais desprezei seu pai.

        Disse que no acreditava que algum que vivia para ganhar dinheiro pudesse
ser verdadeiramente altrusta.

        Est deturpando as minhas palavras, Dee. Eu apenas disse que ningum podia
ser to santo quanto insistia que o seu pai fosse. Colocava-o num pedestal. Era isso que
eu...

        E estava determinado a tir-lo de l, a qualquer preo.  por isso que no
tolero a sua presena no conselho de administrao. No merece fazer parte de algo
que foi a vida para o meu pai. Acho que nunca poderei perdoar Peter pelo que fez.

       Dee deteve-se. No estava mais agentando. Precisava se afastar de Hugo
antes que no pudesse mais controlar as lgrimas.

      A situao se repetia. No era a primeira vez que eles discutiam e que as
acusaes de Hugo a obrigavam a tomar o partido do seu pai.

       Correu para o seu carro. Ouviu Hugo cham-la, mas no se virou para trs.
Muito menos parou. E antes que girasse a chave do motor, viu o carro da mdica virar
a esquina.




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       Captulo 7



       Trs horas mais tarde, quando entrou no seu escritrio em Rye-on-Averton, a
primeira coisa que Dee fez foi folhear a pasta que tinha preparado com tanto carinho
e cuidado, com a ajuda de Ward, e que resumia todo o projeto de atendimento aos
adolescentes da cidade.

        O trajeto de volta para casa no tinha sido suficiente para acalmar os seus
nimos. Sentia-se ofendida e injustiada. No era prepotente, como Hugo a acusara.
Alis, nunca tivera condies nem sequer de assumir total controle sobre a sua prpria
vida.

 raiva, em vez de diminuir, parecia aumentar a cada minuto que passava.
Incapaz de raciocinar, Dee ps-se a andar de um lado para o outro.

       Como  que Hugo se atrevia a interferir? Com que direito dizia o que ela podia
ou no fazer?

       Hugo no sabia nada sobre os problemas que envolviam a sua cidade. Como se
sentiria se fosse ela que estivesse tentando mandar nos seus assuntos?

       Zangada e frustrada, Dee bateu uma mo contra a outra.

        No adiantava culpar Peter. Ele estava cego pela amizade de Hugo. No era
difcil imaginar a cena. Com o seu ar inocente, Hugo obrigara-o a assinar a maldita
procurao, ao mesmo tempo em que se passava por bom samaritano.

       Naquele instante, Dee duvidou mais uma vez das boas intenes de Hugo.
Talvez Hugo no estivesse interessado apenas nos fundos da universidade para o seu
programa.

       As suposies talvez fossem maldosas e sem fundamento, pensou Dee. Talvez
estivesse levando a sua raiva por um caminho ilgico. O bom senso dizia-lhe que Hugo
no seria capaz de nenhuma baixeza. Mesmo que no fosse a pessoa cem por cento
honesta por quem ela o tomava, Hugo no arriscaria a sua reputao por uma ninharia.

       Afinal, como representante das Naes Unidas, Hugo deveria ter milhes de
dlares ao seu dispor.

      Naquele fim-de-semana, ela iria se encontrar com Ward para falarem sobre o
programa. Mas, de que adiantaria?




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s lgrimas contidas foram derramadas por fim. Com os olhos marejados, Dee
olhou para o retrato do seu pai sobre a sua escrivaninha. Era um dos seus preferidos.
Por coincidncia, fora Peter quem o tirara. O seu pai estava sorrindo para ela. Agora,
sempre que estava triste e deprimida, Dee procurava foras naquele olhar e naquele
sorriso.

         Algo que, pela primeira vez, no funcionou.

       Acusara Hugo de ter desprezado seu pai. No era exatamente verdade. O que
Hugo desprezava era o mundo que o seu pai representava aos olhos dele: o mundo de
riquezas e de prestgio, o lugar onde se dava mais importncia aos bens do que s
pessoas. Mas o seu pai no fora algum assim. Apesar de rico e orgulhoso, ele fora
bom e preocupado com os menos favorecidos. A maior tristeza da vida de Dee fora a
incompatibilidade entre Hugo e o seu pai.

       Mas, pai, eu amo Hugo  tentara ela fazer o pai entender muitas vezes,
quando ele a questionava sobre o seu namoro.

          No sabe nada sobre o amor  respondia ele.  Ainda  uma menina.

       No  verdade. Eu sei o que  o amor. Eu o amo, no ? E j no sou uma
menina. J tenho dezoito anos.

          Ainda  uma criana, Dee. Meu beb...

          Oh, papai!  chorou Dee.  Como eu gostaria que tivesse sido diferente.

      Por mais que tentasse, Dee no tinha conseguido aproximar os dois homens que
mais amara na vida. Quanto maior era o seu esforo nesse sentido, maior era a
desconfiana entre eles.

       Como  que ele pode querer t-la?  questionava o pai.  Que planos ele tem
para o futuro? A ltima vez que falei com ele, soube que pretendia isolar-se num
deserto qualquer, assim que defendesse a sua tese de doutorado.

        Ele  como voc, pai  tentara explicar Dee.  Tambm quer trabalhar em
prol dos outros.

          Talvez sim, mas eu jamais deixaria sua me ou voc para me embrenhar pelo
mundo.

         O momento que ela mais temia tinha chegado.

          Papai, Hugo no pretende me abandonar.



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       No? Quer dizer que ele recuperou o juzo?

       No, Hugo no mudou de idia. Eu irei com ele.

       Voc o qu?

       Dee sabia que o pai no aceitaria a sua deciso com facilidade. Embora nunca
tivessem conversado sobre o seu futuro, depois que terminasse a faculdade, era bvio
que ele esperava que a filha voltasse para casa. E ela teria voltado, se no tivesse
conhecido Hugo.

       No podia recriminar seu pai. Ele sempre fora compreensivo com ela. Nunca
tentara impor a sua vontade. Incentivara-a, inclusive, a freqentar uma faculdade,
embora soubesse que ela teria de morar noutro lugar.

        o que Hugo quer. E voc?  tambm o que deseja?

      O que ela gostaria de ter dito  que o seu maior desejo era que o pai e Hugo se
dessem bem.

       Sim. Eu amo Hugo. Preciso ir com ele, pai.

      O seu pai empalidecera.

       Bem,  maior de idade e eu no posso impedi-la de fazer o que quer.

       Hugo a amava. Ela no duvidava disso. Mas sabia que os seus sonhos estavam
acima de tudo. Se ela no o seguisse, Hugo iria sozinho.

       Hugo era um cruzado, um homem que precisava viver a vida em plenitude. No
importava que o povo da sua cidade e de todas as outras tambm precisassem de
ajuda. Hugo precisava visitar outros pases, conhecer novas culturas. No adiantaria,
portanto, tentar faz-lo entender o seu ponto de vista. A famlia dele j o tinha
contrariado o suficiente. Hugo precisava dela, do seu amor e do seu apoio.

      Teriam muitos anos pela frente. Mais tarde, teriam lembranas a partilhar.
Teriam muito para contar aos filhos.

      Um sorriso curvou os lbios de Dee naquele instante.

       Hugo podia ser um cavaleiro impetuoso na sua cruzada, mas algo lhe dizia que,
quando chegasse a hora de terem filhos, ele os protegeria, assim como o seu pai a
protegia.

      Cada vez mais os dois lhe pareciam mais semelhantes. E mais ciumentos um do



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outro, pensou Dee.

        Faltavam poucas semanas para ele terminar o curso. Hugo j tinha terminado o
seu trabalho e preparava-se para defender a sua tese. O combinado era que eles
partiriam assim que fosse possvel para a Etipia que, de acordo com a Cruz Vermelha,
era o local onde mais estavam precisando de auxlio.

       Dee tentou convencer Hugo a passarem algum tempo com as suas respectivas
famlias antes de partirem. Como uma espcie de despedida, pois no tornariam a
encontrar-se to cedo. Mas Hugo estava ansioso demais por abraar o seu trabalho e
no queria retardar nem sequer um dia a partida.

       Embora continuassem a morar oficialmente nas suas respectivas casas, Dee
possua uma cpia da chave de Hugo e passava quase todas as noites com ele. S no
moravam juntos de vez, porque ela no queria dar aquele desgosto ao pai. Ele devia
desconfiar que ela e Hugo eram amantes, mas ao menos no tinha a certeza. Era fruto
de uma gerao que se habituara a ver homens e mulheres vivendo sob um mesmo teto
depois de casados. Nunca antes.

        Dee e Hugo no puderam esperar. Amavam-se muito e a necessidade de
estarem juntos, dia e noite, levara-os ao convvio no apenas emocional, mas tambm
sexual.

      Assim, no havia segredos entre eles. Nem mental, nem fisicamente. Dee
saboreava cada momento em companhia de Hugo. Dava-lhe intenso prazer v-lo
andando despido pelo quarto, esbanjando masculinidade, energia e sade.

       Continuava a surpreend-la e a excit-la o fato de Hugo ainda responder
fisicamente aos seus meros olhares.

       Estou assim por sua causa  costumava dizer ele.  Agora depende de voc
dar um jeito nesta situao.

      No mesmo instante, Dee tratava de acarici-lo.

       Era o que queria?  provocava-o ela sempre.

        Para comear, est timo  respondia ele invariavelmente e beijava-a, para
depois lev-la para a cama, ou caso ela j estivesse deitada, para se colocar sobre o
seu corpo.

       Estavam juntos h dois anos e a intensidade do desejo sexual no tinha
diminudo. Se possvel, era ainda maior. Bastava um beijo, um toque e Hugo levava-a
imediatamente para o delrio. Algumas vezes, no meio de uma discusso, ela provocava-



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o com uma palavra ou um gesto. Hugo insistia em manter-se no assunto, mas o brilho no
seu olhar traa a mudana de inteno.

       Havia discusses de vez em quando,  claro. Ambos eram apaixonados e
voluntariosos nas suas opinies, e entregavam-se por inteiro s suas emoes e
crenas. Mas o nico problema que parecia no ter soluo para eles dizia respeito ao
pai de Dee.

       A apresentao fora um acontecimento que a deixara ansiosa antes, durante e
depois. O pior foi ter a constatao de que a sua ansiedade fora legtima.

        A noite terminou com uma discusso acirrada entre o seu pai e Hugo sobre os
membros do governo e a sua atuao. O seu pai era a favor da poltica atual e Hugo era
contra.

       Dividida entre os dois, Dee procurara acalmar seu pai, ciente do golpe que ele
levaria no seu orgulho quando chegasse o momento de no conseguir mais argumentar
com a racionalidade do parecer de Hugo.

       Mais tarde, de volta a Lexminster, ela tivera de ouvir recriminaes sobre o
fato de ter defendido o pai em detrimento dele e de ter negado as suas prprias
convices.

        Sabe que eu estava certo  acusou-a Hugo e, pela primeira vez, no se
deixou afetar por beijos e carcias.

        O meu pai tem uma viso antiga do mundo, eu j lhe disse. No quis mago-lo.

        Mas no se importou em me magoar  protestou Hugo.

       Primeiro Dee suspirou, depois o enlaou amorosamente pelo pescoo.

        Importa quem venceu?

        Sim  respondeu Hugo, irritado.  Se no importasse, no teria tomado o
partido dele.

         No entendeu. Eu perguntei se importa para voc  explicou Dee.  No 
fcil para o meu pai aceit-lo na minha vida.

       Tambm no  fcil para mim aceit-lo na nossa vida  retorquiu Hugo.
Chegar o dia que ter de escolher a quem entregar a sua lealdade.

      As palavras soaram como uma ameaa. Com o corao apertado, Dee cruzou os
dedos nas costas para que aquele dia no chegasse e para que os dois acabassem por


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se entender, mais cedo ou mais tarde.

       Aquele dia talvez pudesse ter chegado se Hugo, o elemento jovem, tivesse
cedido um pouco e ouvido ou pelo menos tentado fingir interesse pelos conselhos do
seu pai. Ou se o seu pai, mesmo que no concordasse com o ponto de vista de Hugo,
respeitasse as suas diferenas.

       Nada disso aconteceu. A verdade era que nenhum dos dois estava preparado
para ceder. Dee foi obrigada a recorrer  ttica de manter a paz com recurso 
distncia.

       Com o passar do tempo, ciente de que o antagonismo entre os dois homens
tinha aumentado, mas com a data da formatura se aproximando, Dee decidiu abordar o
assunto da sua partida.

      Estava na sala, com o pai, e preparava-se para falar sobre a sua deciso quando
a campainha soou.

       Nos poucos instantes que ficou sozinha, Dee tentou imaginar a cena. Se fosse
Hugo quem estivesse  porta e logo mais se sentasse ao seu lado, ela iria t-lo
escolhido. Afinal, o seu pai era a sua infncia, o seu passado. Hugo era o seu namorado,
o seu amante, o seu presente e o seu futuro. O visitante, porm, era um homem que o
seu pai lhe tinha apresentado poucos dias antes, chamado Julian Cox.

        Embora o jovem no devesse ser muito mais velho do que Dee, estava vestido e
comportava-se como um homem da idade do seu pai. Dee antipatizou com ele 
primeira vista, em especial pelo modo como a tratava, como se fosse um adulto e ela
uma garotinha. O seu pai, ao contrrio, tratava-o com deferncia e no se cansava de
elogi-lo e de apontar a Dee a inteligncia e a cordialidade do outro, para no
mencionar a sua elegncia.

       Da sua parte, Dee considerava-o pretensioso e sem graa mas como no tinha
inteno de discutir com o pai, muito menos aborrec-lo, procurou tratar o visitante
com educao e boa vontade.

        Segundo as informaes do seu pai, Julian Cox era um consultor financeiro que,
a convite dele, passara a fazer parte do conselho de administrao de duas das
instituies de caridade das quais, seu pai era dirigente.

        Causou-lhe espanto que o tal jovem tratasse o pai como se fossem velhos
amigos, embora mal se conhecessem. Se fosse sincera consigo mesma, alis, Dee diria
que a incomodava o modo como Julian Cox se comportava na sua casa, completamente 
vontade.




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        Desculpe, Dee  ele dirigiu-se a ela, depois de t-la ignorado durante um
longo tempo em conversa exclusiva com o seu pai.  A nossa pequena reunio deve
parecer-lhe aborrecida. Finanas no  um tema de interesse para vocs, os
estudantes.

       Ela quase caiu na tentao de dizer a Julian que ele estava enganado e que ela
tinha conseguido transformar modestos investimentos numa respeitvel conta
bancria.

       Quando os dois homens se puseram a conversar sobre os novos planos de
assistncia que pretendiam organizar em prol da populao local e ficou claro que
Julian Cox pretendia desempenhar um papel importante no controle dos fundos, Dee
ficou preocupada.

        O que h de errado com ele?  perguntara-lhe Hugo quando ela manifestou a
sua inquietao sobre o sujeito.

       No sei. Tem algo a ver com o meu sexto sentido. Sinto arrepios ao v-lo.

       Ora, Dee  Hugo gozara com os seus receios.  Pensei que fosse o nico a
provocar-te esse tipo de reao.

       No se trata disso, voc sabe. Os arrepios que sinto por voc so
conseqncia das suas carcias, dos seus olhares, do amor e do desejo que sinto por
voc Mas aquele homem provoca-me calafrios na espinha. No gosto dele. No confio
nele.

       Diga isso ao seu pai, no a mim.

       Ele no me escutaria  confessou Dee, desanimada.

      Hugo no deu importncia aos seus receios.

        Eu no me preocuparia tanto, no seu lugar. Como est sempre dizendo, o seu
pai  um homem racional e inteligente, que est sempre pronto a ouvir as pessoas.
Exceto a mim e a voc,  claro.

        Pare com isso!  protestou Dee.  No est sendo justo. Estamos falando
de dois assuntos completamente diferentes. O meu pai...

       O seu pai tem cimes de mim, porque voc me ama  declarou Hugo.  E
enquanto no aceitar esse fato, receio que no conseguiremos nos entender.

        Agora est fazendo o mesmo que acusa o meu pai de fazer. Por favor, no me
pressione. Est fazendo chantagem emocional. Tente compreender. Ele  o meu pai e


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eu o amo. O que mais quero no mundo  que vocs se entendam.

       J disse isso a ele?  perguntou Hugo.

      Dee no respondeu. Sabia que no adiantaria.

       Contou-lhe?  indagou Hugo aquela noite.

       Sim  respondeu Dee, exausta.

       Quer que eu adivinhe o resultado?  troou Hugo.

       Ele no ficou feliz nem contente  admitiu Dee.

        Por que no me diz algo que eu no saiba?  retorquiu Hugo.  Tenho quase
certeza de que ele a acusou de querer desperdiar o seu talento e o seu diploma, alm
do dinheiro do nosso governo, de querer exp-la a doenas e de estar se entregando a
um homem egosta, em vez de ficar em casa, arranjar um bom emprego e levar uma
vida decente.

      As alegaes de Hugo eram to reais que Dee sentiu um n na garganta.

       Por favor, Hugo. Ele  o meu pai. Ele s quer...

       A nossa separao?  sugeriu Hugo, amargo.

         Ele s quer me proteger  retorquiu Dee. Quando voc... Ns tivermos
filhos, far o mesmo.

       Pode ser que sim, mas no farei chantagem emocional com eles nem tentarei
mandar na sua vida.

        Julian Cox chegou no momento que eu estava prestes a contar sobre a nossa
viagem. Ele est querendo convencer meu pai a coloc-lo no conselho de administrao
da fundao.

       E da?

       Da que no confio nele.

        Concordo que esteja preocupada  admitiu Hugo.  Eu tambm no gosto de
gente que s vive para ganhar dinheiro.

       Porque nunca passou nenhum tipo de necessidade  Dee no suportou mais e
acusou-o.  Sempre viveu de mesadas. E embora no seja herdeiro de uma grande
fortuna, como j disse, um dia tudo o que pertence  sua famlia ser seu. O meu pai,


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em contrapartida, precisou abrir o seu caminho para a vida. Ele tem orgulho do seu
esforo e eu orgulho-me dele pelo que conquistou a custo de trabalho duro. Detesto o
seu ar de superioridade e desprezo quando tece observaes maldosas sobre o meu
pai. No h nada de errado em ser bom e rico.

        No?  Hugo questionou-a.  O meu tatarav fez fortuna trabalhando com
carvo. Ou melhor, mandando gente para as profundezas da terra para cavar carvo
para ele. H uma placa na entrada de uma das minas em homenagem aos vinte e nove
trabalhadores que perderam a vida naquela propriedade. Para aplacar a sua
conscincia, ele pagou uma penso vitalcia s vivas. Eu tive pesadelos durante anos
com aqueles homens.

        Dee mordeu o lbio. Hugo raramente falava sobre a sua famlia. Virou-se para
ele e fitou-o. Aps um instante, Hugo segurou-a pelo queixo.

        Nunca me deixe, Dee. No permita que o seu pai nos separe. Amo-a mais do
que pode imaginar.  a minha vida. Sem voc...

       Mesmo sem mim, iria para a Etipia  murmurou Dee.

        Sim  respondeu ele, spero.   preciso.  algo que tenho de fazer. Mas
no irei sozinho, no ?

      Dee no pde responder, porque ele a beijou naquele instante.

       Mais tarde, com os corpos entrelaados, depois de fazerem amor, Hugo apoiou-
se sobre um cotovelo e olhou para ela.

       H algo que eu preciso de lhe dizer.

        O que ?  perguntou Dee, preguiosa. Hugo fazia sempre aquilo. Antes de
declarar mais uma vez o seu amor, ou de propor uma repetio do ato, olhava para ela
e sorria-lhe. No foi o que aconteceu daquela vez.

       Sobre a misso na Etipia, no pretendo trabalhar como voluntrio apenas
por um ano.

       Dee sentou-se na cama. Sabia o quanto Hugo era devotado ao trabalho
assistencial, mas nunca tinha imaginado que ele pretendia dedicar-se por mais de um
ano ao projeto.

        Estive conversando com uma pessoa um dia desses e soube que eles esto
precisando no apenas de voluntrios para trabalhar no campo, mas de pessoas
capazes de angariar fundos de solidariedade.



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       Mas no pode querer fazer ambas as tarefas!

        No ao mesmo tempo,  claro  concordou Hugo.  Charlotte disse-me que
eu seria a pessoa ideal para agir como porta-voz daquele povo e angariar fundos,
principalmente depois que eu tiver a prtica e a experincia desse ano de dedicao.

       Charlotte?  Dee franziu o rosto.

        Charlotte Foster  o seu nome. No a conhece. Ela formou-se um ano antes
do que eu e est trabalhando com crianas carentes. Voltou recentemente de uma
misso e eu encontrei-a na cidade por acaso.

      Dee permaneceu em silncio.

        Estou avisando-a, portanto, que talvez tenha de passar mais tempo fora do
que planejvamos.

        Est avisando-me, ento, de que talvez ns tenhamos de passar mais tempo
fora do que planejvamos  corrigiu-o Dee.

      Hugo a abraou.

        Eu sabia que entenderia. A nica implicao  que teremos de esperar um
pouco mais do que pretendamos para ter uma famlia  Hugo suspirou.  Charlotte
disse-me que eles so exigentes. Insistem em detalhes inacreditveis antes de
aceitarem novos membros no seu pessoal permanente. Houve escndalos recentemente
envolvendo nomes de pessoas ilustres, que desviaram dinheiro da caridade para os
seus prprios investimentos. Houve um caso, segundo Charlotte, em que um dos
membros foi convidado a retirar-se do grupo porque o nome do seu padrasto estava
sob suspeita. Bem, acho que d para avaliar por que razo eles so to cuidadosos no
recrutamento e seleo de candidatos.

      Dee concordou com um gesto de cabea.

      No mesmo instante, Hugo abraou-a a beijou-a.

        maravilhosa.  a mulher perfeita para mim. A esposa ideal!

       Os dias que se seguiram foram atribulados. A deciso de Hugo de trabalhar
noutro pas num grupo de auxlio em carter permanente, e j no temporrio,
envolveu diversas viagens entre Lexminster e Londres para testes e entrevistas.

        Cus, cada dia percebo que no sei nada, que h muito ainda a aprender
disse Hugo a Dee, uma tarde, ao voltar de uma entrevista numa das agncias de
recrutamento que Charlotte lhe tinha indicado.


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      Menos de um ms depois, o romance de Dee e Hugo chegou a um ponto crucial.
Por mais que ele garantisse que no havia nada entre ele e Charlotte, as referncias
constantes  mulher e  sua dedicao extremosa ultrapassaram o limite de tolerncia
de Dee.

        No me interessa o que Charlotte diz ou deixa de dizer. A nossa vida no
gira em torno da sua experincia nem das suas lies. Dava, por exemplo, para
respeitar o meu estudo? Os exames finais esto marcados para daqui a quatro
semanas.

        Ser aprovada  respondeu Hugo com otimismo.  Vim lhe dizer que
Charlotte nos convidou para um jantar de comemorao esta noite.

          De comemorao?

       Sim. Ela tem a certeza de que receberei um posto permanente na misso.
Vamos, Dee. Comece a se preparar. Acho que d tempo para um banho rpido.

        No posso sair esta noite, Hugo  Dee indicou as pilhas de livros sobre a
escrivaninha.  Tenho de estudar  ela fez uma pausa e suavizou a voz.  Por que no
vai sem mim?

       Dee estava realmente atribulada, alm de preocupada. Ainda no tinha reunido
coragem para contar ao pai que a viagem tinha assumido um carter permanente e que
Hugo e ela passariam a maior parte da sua vida de casados longe da Inglaterra. E no
era mentira que precisava de se preparar para os exames finais. Se Hugo ficasse em
casa naquela noite, excitado como estava com a notcia que acabara de receber, o seu
estudo no renderia. Seria bem mais fcil, se ele fosse e ela ficasse.

          Tem certeza de que no se importa?  Hugo hesitou.

          Vai e divirta-se. Sem exagerar,  claro  brincou Dee quando ele lhe deu um
beijo.

          Eu a amo  murmurou Hugo ao sair.

          Mais tarde quero que me mostre quanto  provocou-o ela.

        Embora a idia de ficar sozinha tivesse partido de Dee, a inquietao impediu
que se concentrasse nos livros. Movida por um sbito impulso, ela pegou no telefone e
ligou para o pai.

      Ele atendeu de imediato e pelo seu modo de falar, Dee adivinhou que ele
esperava que fosse outra pessoa. O que era estranho. O seu pai nunca estava
demasiado ocupado para falar com ela ao telefone. Ele estava sempre se queixando,


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alis, que ela no telefonava com a freqncia desejada. Somado a isso, a sua intuio
no parava de lhe dizer que algo estava errado.

        Pai, eu...

       Mas ele no a deixou falar.

        Preciso desligar, filha. Estou  espera de um telefonema importante.

       Pai!  repetiu ela em tom de urgncia, mas no adiantou. A ligao foi
cortada.

      Dee esperou dez minutos e tornou a ligar. A linha estava ocupada. Cinco
minutos depois continuava ocupada. Outros dez minutos de espera e o resultado foi o
mesmo.

        Eram quase dez horas, mas Dee sentiu que precisava ver o pai ainda naquela
noite. Escreveu um bilhete para Hugo e correu para o carro.




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      Captulo 8



       Dee foi trazida de volta ao presente pelo sbito e estridente som do telefone.
Era Ward. Aps trocarem cumprimentos e Dee perguntar sobre Anna e sobre o beb,
o amigo foi direto ao assunto.

       Estive pensando, Dee. O mtodo talvez no seja ortodoxo, mas no acha
melhor que eu fale diretamente com os membros do conselho de administrao?

        Eu agradeo a sua ateno, Ward  respondeu Dee,  mas no creio que iria
adiantar. Surgiram problemas.

      Dee explicou rapidamente o que tinha acontecido.

       Est dizendo que algum conseguiu convencer o seu professor a dar-lhe uma
procurao? Quem  essa pessoa? Algum parente?

       No  parente, mas um velho amigo  contou Dee.

        No acha que deveramos fazer uma pequena investigao? Ele pode ter
pressionado Peter e...

       Oh, no  apressou-se a discordar Dee.   uma pessoa de confiana. Eu o
conheo. Ele ocupa uma posio de prestgio numa das principais agncias humanitrias
do mundo  ela poderia garantir que Hugo era o homem mais honesto que conhecia.
Mas aquilo significaria revelar fatos sobre o passado que nunca contara a ningum.

       No consigo entender por que motivo esse homem resolveu se opor a voc.
Qualquer pessoa de bom senso compreende a magnitude do seu projeto.

       Hugo considera-se um cruzado da moral.

        Bem, o meu conselho  que no desista  murmurou Ward.  Prepare-se
para a reunio e faa com que a ouam. Esse homem, afinal, no  o nico membro do
conselho de administrao.

        As minhas chances so muito remotas, Ward  confessou Dee.  Sou a
nica mulher no grupo e tambm a mais jovem.

      Cinco minutos depois que Ward e ela se despediram, o telefone voltou a tocar.

        Dee, como vai?  era a sua amiga Beth.  Eu a vi em Lexminster hoje. Por
que no me fez uma visita?


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       Beth e o marido estavam morando nos arredores da cidade numa aconchegante
casa de campo. Alex tinha sido convidado para dar aulas de Histria Moderna na
faculdade e estava saindo-se muito bem. Beth, embora tivesse se mudado de Rye,
continuava trabalhando na loja de artigos de vidro com a scia Kelly, duas vezes por
semana.

        Eu adoraria v-la e conversar um pouco, mas no tive tempo  respondeu
Dee.

 uma pena, mas eu entendo. Anna contou-me que tem andado muito ocupada
com o seu projeto de abrir um centro de convivncia para jovens, nos moldes do que
Ward criou. Quero que saiba que a tia de Alex est  disposio, caso queira algum
para ensinar arte de fabricar objetos de vidro aos seus pupilos. Acredite, Dee.
Ningum  melhor do que ela.

       Dee agradeceu. Beth no podia nem sequer imaginar o quanto ela gostaria de
entrar em contacto com a tia de Alex no futuro. Significaria que o seu projeto tinha
sido aprovado.

        Olhe, no quero prend-la, portanto serei direta. Est livre no sbado 
noite? Sei que estou ligando em cima da hora, mas Alex receber uma pessoa para
tratar sobre uma nova bolsa de estudos e...

        Essa pessoa  ele ou ela?  indagou Dee, adivinhando de imediato o que havia
por trs do repentino convite.

       Beth no conseguiu disfarar.

 ele  admitiu, rindo.  Mas juro que no estou querendo armar-me em
casamenteira. Ento, posso contar contigo?

       Dee no teve coragem de dizer no  amiga.

        Eu sabia que podia contar contigo! Espero-a entre as sete e meia e as oito
horas, est bem?



      Naquela noite, depois que Hugo saiu para o seu jantar de comemorao, Dee foi
para Rye. Abriu a porta da casa do seu pai com a sua prpria chave e chamou-o. Como
no obteve resposta, examinou a sala e o escritrio. Mas foi na cozinha que o
encontrou, sentado e mudo como se fosse uma esttua.

 sua frente havia uma garrafa de usque e um copo vazio. Como sabia que o pai
raramente bebia, Dee sentiu-se invadir por uma onda de pnico.


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Capricho do Destino                                                 Penny Jordan

       Pai?

      O desespero que viu nos olhos dele a fez empalidecer.

       Papai, o que houve?  Dee ajoelhou-se e segurou-lhe as mos.  Est
doente?  perguntou ao senti-las frias como gelo.  Fale comigo, por favor.

        Doente? No  murmurou ele.  Cego, Dee. Eu estive cego todo este tempo.
Fui destrudo pelo meu prprio orgulho e pela minha vaidade Dee  comeou a tremer.
Demorou alguns segundos at que percebeu que os seus tremores eram apenas um
reflexo do corpo do seu pai.

       Por favor, conte-me. O que houve?

       No deveria ter vindo. E os seus exames? E Hugo?

       Ele precisou sair.

       Ento ele no veio contigo?

      Dee reconheceu uma expresso de alvio naquele rosto abatido e cansado.

       Ainda bem. Apesar de ser apenas uma questo de tempo at que todos
saibam.

       Saibam o qu?  insistiu Dee.

       Que eu confiei num ladro e agora serei considerado um mentiroso e um
trapaceiro  o pai fez uma pausa.  Gordon Simpson, o gerente do banco onde temos
os nossos fundos depositados, ligou-me na semana passada para avisar que foram
encontradas discrepncias na conta da instituio.

       Discrepncias? De que tipo?  indagou Dee, perplexa.

       O seu pai sempre fora meticuloso em relao aos assuntos contbeis. Se um
erro fora cometido, no poderia ser grave.

       Alguns chamam de fraude.

       No  possvel!  Dee quase gritou.  Nunca permitiria...

        No. Mas confiei em Julian Cox e ele me traiu. No sei o que houve comigo,
Dee. Deixei-me ludibriar por um crpula. Ele roubou milhares de libras destinadas 
caridade sob o meu nariz  o pai deu uma risada irnica.  Gordon tentou consolar-
me. Disse que ningum me atribuir a culpa pelo que houve. Disse que nunca



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Capricho do Destino                                                    Penny Jordan

desconfiou, assim como eu, do sujeito. Mas isso no importa. Continuo a ser o nico
responsvel pelo envolvimento de Julian Cox no nosso conselho de administrao. Ele
no teria participado, se no fosse por meu intermdio.

       Dee mordeu o lbio, incapaz de falar.

        Eu restitu a quantia que ele roubou,  claro, e recebi promessas tanto de
Gordon como de Jeremy, o seu contador, de que a notcia no se espalhar, mas isso
no me faz sentir melhor. No consigo esquecer as palavras de Julian Cox quando fui
falar com ele. Sabe o que ele teve o atrevimento de fazer, Dee? Ele tentou fazer
chantagem. Comigo, Dee! Ameaou ir aos jornais com a mentira de que eu o tinha
apoiado e at mesmo incentivado a desviar o dinheiro, caso insistisse em process-lo.

       O pai balanou a cabea.

        Gordon e Jeremy aconselharam-me a esquecer o assunto. Disseram que a
abertura de um processo chegaria ao conhecimento pblico e que a credibilidade da
nossa instituio seria instantaneamente prejudicada. Em conseqncia, os donativos
poderiam desaparecer. Eles apontaram-me a reposio do dinheiro como a melhor
soluo para que o caso fosse abafado.

      Dee sentiu pena do pai. Conhecia-o como ningum. Para ele, lei e moral eram a
base da sua vida. Como o pobre deveria estar sentindo-se humilhado! No era apenas
uma questo de orgulho ferido, mas de um golpe quase fatal na sua auto-estima.

       Dee esforou-se para confort-lo, mas sabia que nenhuma palavra teria o poder
de afastar a tristeza que o dominava. O seu pai pertencia a uma gerao que
acreditava que o homem deveria ser a pessoa forte da famlia e que era sua misso
proteger os seus dependentes. Alm de tudo, portanto, ele estava culpando-se por ter
falhado com ela.

       A bem da verdade, seu pai sempre tinha tentado afast-la de problemas e de
situaes desagradveis. T-la ao seu lado naquele instante e saber que no conseguira
poup-la deveria ser a morte para ele.

        Dee resolveu passar aquela noite na casa de seu pai. Ligou para Hugo para
avis-lo e no o encontrou. A decepo por no poder contar com ele naquele momento
de necessidade, em vez de mago-la, irritou-a. Poderia ser um absurdo, mas parte da
raiva que estava sentindo por Julian Cox foi desviada para Hugo.

       Pela manh, quando viu o estado de seu pai, que lhe pareceu ainda pior do que na
noite anterior, no soube o que fazer.

       Ela tinha se levantado antes e preparado um caf da manh leve, mas nem ele



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nem ela conseguiram se alimentar. Quando o pai a avisou de que precisaria sair e se
recusou a dizer-lhe aonde iria, Dee tentou det-lo.

       No fez nada de errado! Por favor, no fique assim.

       O pai parecia mais magro do que na ltima vez que o vira. Parecia, alis, ter
envelhecido muitos anos em poucos dias.

        No fiz nada de errado sob o ponto de vista legal, talvez, mas permiti que um
ladro me fizesse de tolo. Confiei nele. Pior do que isso, confiei-lhe o dinheiro de
outras pessoas. Quem ir acreditar que eu no sabia disso, que no tomei parte no
desvio daquele dinheiro?

        Todos acreditaro em voc, papai!  protestou Dee.  Afinal, no precisa de
dinheiro. Tem muito mais do que o suficiente para o resto da sua vida.

        Ns sabemos disso, mas e os outros? Tero a certeza da minha honestidade?
Existe um ditado que diz que onde houver fumaa haver fogo. Tenho medo de
rumores, Dee  ele calou-se por um instante.  Volte para Lexminster e procure no
se preocupar comigo. Falta pouco para os exames.

        Tenho tempo de sobra para estudar  respondeu Dee.  Quero ficar aqui
contigo. Quero estar presente na prxima reunio do conselho de administrao.

       No.

       A proibio foi to categrica que Dee estremeceu. Seu pai no costumava usar
aquele tom de voz com ela. Nunca perdia o controle.

      Tentou persuadi-lo mais uma vez, mas o resultado foi o mesmo.

       Volte para Lexminster.  uma ordem, Dee.

      E ela voltou. Cometeu o erro terrvel de obedec-lo. Um erro de que jamais se
perdoaria.

       A seu ver, ela tambm tinha culpa pela morte de seu pai, embora Julian Cox
fosse o principal responsvel. Se ela tivesse insistido e ficado ao lado dele...

      Mas voltou para Lexminster, ansiosa por ver Hugo e contar o que tinha
acontecido, desesperada por se refugiar nos seus braos como uma criana assustada.

       Porm, quando chegou a casa, Hugo tinha viajado s pressas e deixado um
bilhete para avis-la de que fora chamado novamente a Londres para uma entrevista e
que no sabia quantos dias ficaria fora.


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       Dee no conteve o pranto. Sentia-se sozinha, desamparada e ao mesmo tempo
furiosa. Precisava de Hugo ali com ela, no em perseguio dos seus sonhos. Ao menos
uma vez, queria que Hugo pensasse nela em primeiro lugar. Seria aquele o tipo de vida
que teria quando casassem? Sempre? Hugo estaria ocupado sempre que precisasse
dele? Outras pessoas seriam sempre mais importantes para ele do que ela?

       Dee estava tensa e agitada demais para pensar com clareza naquele momento.
No conseguia entender que Hugo no tinha meios nem sequer de desconfiar que algo
de muito grave estava para acontecer. O fato dele ter viajado era suficiente.

       Assim que terminou de ler o bilhete, Dee ligou para casa de seu pai. Como no
obteve resposta, tentou alcan-lo no escritrio. Quase gritou de frustrao ao ouvir
a voz montona da secretria.

       O seu pai? Oh, querida, lamento muito. No sei onde ele se encontra.

       Ele disse que tinha de sair esta manh. Imagino que se tenha encontrado com
algum  retorquiu Dee.  Poderia verificar a agenda dele?

        Oh, um momento. Ele marcou uma consulta com o dentista. No, no. Estou
verificando a data errada. Sim, aqui est. Almoo com Julian Cox. Mas se ele saiu
cedo, infelizmente no fui informada sobre o compromisso.

       Cinco minutos depois, sem que a secretria conseguisse desvendar o mistrio
sobre o paradeiro do seu pai, Dee tentou novamente ligar para casa. Inutilmente.

      J tinha anoitecido quando ela teve notcias.

       O agente da polcia que Dee encontrou  sua porta ao atender a campainha
estava to constrangido que ela no demorou a adivinhar a razo da sua presena.

       Est aqui por causa do meu pai, no ? Aconteceu-lhe alguma coisa?

       Seu pai tinha sofrido um acidente, contou ele. Deveria ter sado para pescar e
cado do barco. Ningum sabia ao certo.

      Dee fechou os olhos e precisou de se agarrar  porta para no cair. A sua
cabea no parava de rodar. O seu pai tinha morrido. Ela nunca mais o veria.

      Teria de voltar para Rye. Era a nica filha. Havia formalidades a serem
cumpridas.

        Foi com grande alvio que Dee viu Ralph Livesey, amigo e mdico da famlia, 
sua espera  porta da casa de seu pai. Ele j estava tomando todas as providncias
legais, poupando-a dessa terrvel misso.


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       No consigo entender  desabafou Dee.  Meu pai sabia nadar. Era um
campeo. Como pode ter-se afogado?

       O olhar do mdico disse tudo. Foi como se ela recebesse um golpe fsico.

        No foi acidente, pois no?  quando no houve resposta, Dee cedeu ao
histerismo.  No foi um acidente! Meu Deus, no foi um acidente!

       O mdico segurou-a pelos braos.

        Dee! Pare com isso!

       As palavras que o mdico trocou com o agente soaram como algo muito
distante. Dee no poderia repeti-las. S voltou a si quando j se encontrava no carro
do doutor Ralph a caminho da casa dele.

        Ningum sabe ao certo o que houve, Dee. No coloque idias na sua cabea.

        Foi Julian Cox o responsvel  murmurou Dee.  Ele o matou.

         Se a verdade realmente for essa, acho que o resto do mundo no precisa
saber, Dee. Seria muito pior. A verso policial  a que deve ser mantida. Foi um trgico
acidente. Seja forte, querida. Acusaes e processos judiciais no traro o seu pai de
volta. E a sua reputao poderia ficar comprometida.

        A sua reputao comprometida?  repetiu Dee, atnita.

        Vivemos numa cidade pequena. O conselho de administrao encarregou-se
de espalhar certos aspectos do relacionamento do seu pai com Julian Cox.

        Julian deu um golpe ao meu pai  contou Dee.

       Ns os dois sabemos disso, mas agora que o seu pai no est aqui para se
defender, o tal sujeito pode dizer todas as mentiras que quiser.

        Est me dizendo que no acontecer nada quele assassino?

       Entendo os seus sentimentos, Dee, mas no podemos acusar Julian Cox de
ter matado o seu pai. Ningum pode. O meu amigo pode ter escorregado e cado no rio.
Ou ter-se sentido mal e cado.

       Dee olhou nos olhos do mdico.

       No consigo acreditar que tenha sido um acidente. O meu pai era um
excelente nadador.



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        Foi um acidente  repetiu Ralph Livesey. Tenho a certeza de que o seu pai
teria preferido assim.

       Decorreu quase uma semana at que Dee tivesse condies de voltar a
Lexminster. Alm do funeral, assuntos referentes aos negcios que ele deixara
precisavam de ser resolvidos. E Dee sabia qual seria o seu caminho agora. Como nica
herdeira, deveria continuar a obra que o seu pai iniciara. Era a guardi do seu nome e
da sua dedicao. Ningum mais poderia zelar pela sua memria como ela.

      Tomada a deciso, Dee procurou o advogado da famlia e convocou uma reunio
com todos os que tinham trabalhado com o seu pai e para ele.

       O advogado foi quem demonstrou maior espanto quando ela afirmou que no
voltaria para a faculdade. Como poderia deixar Rye? Como poderia deixar o nome e a
reputao do seu pai  merc de Julian Cox e de gente como ele?

       Cometera o erro de deixar o seu pai desprotegido uma vez e agora teria de
viver com o remorso pelo resto da sua vida. No tornaria a acontecer. No adiantava
dizerem-lhe que no deveria tomar nenhuma deciso enquanto estivesse em choque.

       Hugo teria de ser informado,  claro, mas ela duvidava que ele fosse importar-
se. Se Hugo se preocupasse com ela, teria ficado ao seu lado quando mais precisara.

        H dois dias que o seu pai falecera e faltava um dia para o funeral quando Hugo
lhe telefonou.

        Dee, o que houve? Sempre que telefono para casa, no est. O que faz em
Rye?

        A minha presena foi necessria  limitou-se ela a dizer.

        Olhe, no poderei voltar por alguns dias ainda. Algum numa das misses
pediu para sair e parece que eu serei apontado para substitu-lo. No  timo? O nico
porm  que a partida ser antecipada em cerca de seis semanas  Dee ouviu-o rir.
Estou muito empolgado. O programa  fascinante. Cada dia descubro que tenho mais a
aprender. Sabia que h povos, no nosso sculo, que ainda usam tcnicas quase pr-
histricas na agricultura?

       Ainda traumatizada com a morte sbita do pai, Dee mal pde ouvir o discurso
egosta de Hugo e o seu completo descaso das suas necessidades, da sua dor. Naquele
instante, ela soube que alm de proteger o seu pai da maledicncia, precisava proteg-
lo contra a falta de amor de Hugo.

       Assim, Dee optou por no lhe contar nada. A sua estadia em Londres era



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preciosa demais para ser arruinada.

        Desculpe, mas tenho de desligar.  Ela ouviu-o a cham-la, atnito, quando
desligou o telefone. Ele voltou a ligar quase imediatamente. No atendeu.

       No dia seguinte, o seu pai seria enterrado, mas Hugo estava mais interessado
nos mtodos de plantio de povos que ele nem sequer conhecia do que na sua dor. O seu
pai estava certo ao questionar o amor de Hugo por ela. Mesmo que fosse verdadeiro,
como era o dela por ele, o futuro em comum no seria possvel. O lugar dela era em
Rye. Em nenhuma outra parte.

        Dee fechou os olhos. No sabia onde seria o futuro de Hugo. Naquele momento,
o que importava era no apenas proteger o nome do seu pai de Julian Cox, mas honr-
lo e reverenci-lo.

       Hugo tentou dissuadi-la,  claro, mas ela permaneceu firme na sua deciso. A
sua recusa em atender o telefone o fez largar a agncia em Londres e procur-la em
pessoa. Mas no adiantou. Tudo o que Dee conseguia pensar era no msero
relacionamento que Hugo tivera com o seu pai e na prioridade que ele dava s suas
ambies.

       Dee, ns nos amamos!  protestou Hugo mais de uma vez.

       No, eu no o amo mais  mentiu ela.  O meu pai estava certo. No teria
dado certo.

      Dee no contou a verdade sobre a necessidade da sua permanncia em Rye.
Hugo no entenderia.

       No ntimo, porm, ela esperava que Hugo se recusasse a aceitar a sua deciso.
Queria que ele dissesse que no permitiria que nenhum problema os separasse, mesmo
que para isso tivesse de desistir dos seus planos. Mas ele no disse nada. Os seus
planos significavam tanto como o seu pai significava para ela.

        Deixe os negcios de seu pai aos cuidados de algum da sua confiana, Dee
implorou Hugo.

       No posso.

       Por que no?  insistiu ele, zangado.  Por que  to importante para voc
ganhar mais dinheiro do que j tem?

       Dee suspirou. Poderia dizer que no era o dinheiro que a preocupava, mas sim a
reputao do seu pai. Mas aquilo implicaria revelar que o seu pai estivera  beira de
ser chamado de golpista e que preferira renunciar  vida.


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       Pouco tempo antes, Hugo tinha feito comentrios sobre a importncia da sua
prpria reputao no sentido de conseguir um lugar nas misses de ajuda. Como  que
ele se sentiria, se a sua indicao fosse retirada por causa de um escndalo que
envolvia o nome Lawson?

       Hugo repetiu vrias vezes que no conseguia entender o que estava se passando
com ela.

          Conte-me a verdade. Conheceu outra pessoa? Sei que o seu pai...

       No fale sobre o meu pai!  proibiu-o Dee.  Acabou, Hugo. Acabou.
Lamento muito se no consegue aceitar esse fato  ela levantou-se.  Adeus.

        Adeus?  repetiu ele, irnico.  Como pode se comportar assim? No somos
dois estranhos. Ns pretendamos casar, ter filhos.

       Dee estremeceu. No queria que Hugo suspeitasse da verdade. Tinha de se
afastar dele, custasse o que custasse.

          Mudei de idia.

       Ela soube o que Hugo iria fazer antes que ele a tomasse nos braos e a
beijasse. Foi terrvel, mas obrigou-se a permanecer inerte.

          Se insistir, Hugo, estar me violentando.

         Ele a soltou no mesmo instante, plido como a morte. Como ela sabia que ele
faria.

        No chorou quando se viu sozinha. No chorou no funeral do seu pai. No
conseguiu afastar-se da sepultura por um longo tempo. Quando ergueu o rosto, por
fim, viu Hugo a observando a distncia.

      Ele fez meno de se aproximar, mas ela impediu-o com um gesto de cabea e
afastou-se em direo oposta.

       No queria que Hugo soubesse o quanto estava sofrendo. O quanto j sentia a
sua falta. O quanto queria que ele dissesse que ela era mais importante do que tudo e
que nunca sairia do seu lado.

       Aps o funeral, Dee foi para a casa de uma tia do seu pai em Northumberland,
por insistncia do doutor Ralph Livesey. Quando voltou a Rye, algumas semanas depois,
encontrou uma srie de recados de Hugo, implorando que ela entrasse em contacto
com ele. Queimou-os todos.



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       S dois meses depois, quando acordou uma manh, Dee se deu conta de que no
tinha perdido apenas o pai, mas tambm o homem da sua vida.

       Ligou para Hugo em Lexminster, mas ningum atendeu. Correu para o carro e
foi para l. Encontrou o apartamento vazio. Um vizinho informou-a de que Hugo tinha
partido para a Somlia no dia anterior.




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      Captulo 9



       Ward, estou preocupada com Dee.

      Ward Hunter largou o jornal que estava lendo e olhou para a esposa.

       Estavam casados h quase um ano e ele no conseguia entender como pudera
viver tanto tempo sem ela. Amava-a. Bastava olhar para aquele rosto lindo e sereno
para esquecer os problemas.

       O fato de Anna trazer na barriga o seu beb s fazia aumentar o grande amor
que lhe dedicava.

        No deve se preocupar, querida. Dee sempre foi forte e independente. Ela
sabe cuidar da sua prpria vida.

        Anna suspirou. Por mais que respeitasse a opinio de seu marido, havia certos
sinais que somente uma mulher podia compreender. Dee era auto-suficiente, mas a sua
intuio dizia-lhe que a sua grande amiga no estava conseguindo lidar com as suas
emoes.

       O que  que ela disse, exatamente, sobre as dificuldades que est tendo
para montar um centro de convivncia para jovens como o seu?  quis saber Anna.

        No muito. Mas tenho a certeza de que no  esse o principal problema que a
est afligindo.

       Anna concordou com o marido daquela vez. Ligaria para Dee naquele mesmo dia.
Ou talvez fosse melhor mesmo visit-la.

       Dee abriu a porta da sua casa e entrou. Estava exausta. Passara a manh e
quase toda a tarde atrs de apoio para o seu programa de ajuda aos adolescentes, mas
os resultados no tinham sido satisfatrios.

      A nica pessoa que a apoiava no seu ponto de vista sobre a necessidade de uma
mudana era o gerente do banco.

       Colocou as pastas em cima da mesa da cozinha e serviu-se de um copo de gua.
Estivera com o seu advogado mais uma vez e ele no lhe dera esperanas. Sem o apoio
de Peter, em outras palavras, de Hugo, ela no conseguiria nada com o conselho de
administrao.

       Eu tenho dinheiro  protestou Dee.  Se o usar...


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        No a aconselho a fazer isso. Ainda  jovem e tem o futuro pela frente. J
fez donativos altos demais, diria eu, para o fundo de caridade. Agora precisa pensar
que ainda tem muito que viver e que no tem mais ningum que olhe por voc.

      Dee reconheceu que o advogado tinha razo. Embora seu pai a tivesse deixado
amparada, a sua herana no era to grande como as pessoas podiam pensar.

       Dee, como o seu pai, preferia doar o dinheiro que ganhava em troca do seu
trabalho para fins de caridade, em vez de engordar a sua conta bancria.

       Aborrecida, Dee colocou gua para ferver na chaleira e olhou pela janela. No
conseguia parar de pensar em Peter e no que considerava ter sido uma traio da
parte dele.

       Estava desligando o fogo quando a campainha tocou. No se moveu. No estava
com disposio para receber visitas. Queria apenas tomar uma xcara de ch e ficar
sozinha com a sua amargura. Mas voltaram a tocar  campainha e ela resolveu atender
de uma vez.

       Ao abrir a porta, demorou alguns instantes para ver quem era, devido  forte
claridade que incidiu sobre os seus olhos.

       Hugo!

       No teve tempo para reagir. Assim que abriu a porta, ele entrou no hall,
obrigando-a a recuar.

       O que quer?  perguntou Dee, rspida.

       Precisava v-la. Quero conversar contigo.  A voz contida e a expresso
sombria assustaram-na.

       O que houve? Peter piorou?

      Antes que Hugo pudesse responder, o telefone tocou no escritrio.

       Dee, sou eu, Anna  Dee ouviu a amiga identificar-se.  Estava com
saudades e resolvi ligar para falarmos um pouco. Como est? Ward contou-me sobre os
problemas que est enfrentando com o conselho de administrao...

        Anna, posso ligar para voc mais tarde?  interrompeu-a Dee.  Estou
muito ocupada neste momento.

      Dee no queria ofender a amiga, mas no havia nenhuma chance de conversarem
enquanto Hugo estivesse na sua casa.


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       Claro que sim. Eu entendo. No h pressa.

       Dee desligou, ciente de que tinha surpreendido Anna com o seu comportamento.
Mas realmente no havia outro jeito. Mais tarde, quando ligasse, pediria desculpa e
daria uma explicao.

      Ao voltar para a cozinha, Dee encontrou Hugo sentado e lendo o seu projeto.

       Quem lhe deu autorizao para mexer nos meus documentos?

 este o plano que pretende apresentar ao conselho de administrao?
Hugo interrompeu-a, como se no tivesse ouvido a sua reclamao.

       Sim. Mas isso no lhe diz respeito, no ?

       Dee gostaria de ter mordido a lngua antes de falar. Tudo o que envolvesse o
conselho de administrao dizia respeito a Hugo. Como pudera esquecer-se?

      Para sua surpresa, Hugo continuou a fingir que no tinha ouvido.

        A sua proposta implica mudanas radicais no que tem sido feito at agora em
Rye, em termos de caridade.

       Pela porta do escritrio, que deixara aberta, Dee notou que o fax estava
funcionando. Olhou para Hugo e hesitou. Em alguns mercados, uma demora de poucos
minutos poderia significar um prejuzo de milhares de libras.

      Sem dizer nada a ele, correu para o escritrio e leu a mensagem:

       "Corpo encontrado no mar de Singapura foi identificado como de Julian Cox. As
autoridades esto investigando a possibilidade de assassinato, pois Cox era um
jogador e devia fortunas em vrias partes do mundo. Alguma instruo especial?"

      A mensagem fora enviada pela agncia de detetives que Dee tinha contratado.
Algo que ela fizera mais para aplacar a sua conscincia do que por esperana de
conseguir fazer justia ao homem que causara a morte do seu pai.

        Dee fechou os olhos e tornou a ler a mensagem alguns segundos depois. Que
ironia! Julian Cox tinha morrido da mesma forma que o seu pai.

      Um soluo escapou-lhe da garganta.

       Dee? O que foi?

      Dee viu Hugo entrar no escritrio como se estivesse assistindo a um filme. Ele



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tirou-lhe o fax das mos, mas as palavras tinham ficado gravadas na sua memria. E a
morte sbita de seu pai voltou a atingi-la com o impacto de um raio.

       Julian Cox estava morto. Ela no o veria mais pagar pelo seu erro. Agora ele
estava diante da justia divina...

        Cox est morto  Dee ouviu Hugo dizer.  Nunca pensei que ele significasse
tanto para voc.

       A vontade de Dee era gritar bem alto, mas ela procurou controlar-se.

         Oh, sim. Significa muito. Significa que eu perdi o meu pai por causa dele. Que
ele quase destruiu tudo o que o meu pai levou a vida inteira para construir. Ele confiou
nesse homem e foi trado. Como se no bastasse o que fez, Julian Cox ameaou-o, caso
ele insistisse em denunci-lo. E levou-o a acabar com a prpria vida.

       Dee levou ambas as mos ao rosto quando terminou de falar. Sentiu-o molhado.
O seu corpo tremia.

        Dee, o que est dizendo? O seu pai e Julian Cox eram scios e amigos...

        Ele era um inimigo. Ele fez chantagem com o meu pai  Dee soluou.  Oh,
Deus, por que eu deixei que aquilo acontecesse? Por que no insisti em ficar ao lado do
meu pai naquele dia? Se eu no o tivesse deixado sozinho, ele poderia estar vivo agora.

       Dee deteve-se. Se o seu pai no tivesse morrido, ela provavelmente no estaria
ao lado dele. Teria casado com Hugo, talvez tido filhos...

       Fui egosta. Queria voltar para voc. Nunca imaginei que o meu pai pudesse
cometer suicdio. Que Julian o levaria a esse gesto desesperado.

        Dee, o seu pai no fez isso  Hugo tentou acalm-la.  Foi um acidente.

        No acredito. Ele nadava como um peixe. Alm disso, como poderia ter
simplesmente sado para pescar naquela manh, quando o mundo estava desabando
sobre a sua cabea?

       A voz de Hugo no poderia ser mais gentil.

        Dee, venha se sentar. Farei um caf bem forte para ns.

        No quero beber nada. S quero ficar sozinha.

       Estava acabado. No precisaria mais de mandar seguir Julian Cox. Estava livre
daquele nome. O destino tinha assumido as rdeas e encontrado a melhor maneira de



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Capricho do Destino                                                   Penny Jordan

fazer justia.

         Por que motivo, ento, ela ainda no estava em paz? Por que razo, em vez de
alvio, estava sentindo raiva?

       Porque  que o seu pai fizera aquilo? Por que no pensara nela? No sabia o
quanto ela o amava? No sabia o quanto sofreria?

       Ele abandonara-a. Essa era a realidade.

        Chorou tanto que perdeu as foras. De repente, contudo, sentiu um abenoado
calor, conforme Hugo a abraava e olhava nos seus olhos.

        Dee, no est bem. Vou chamar um mdico.

        No. No  preciso  apressou-se ela a dizer.

        Ao menos, me deixe lev-la para o seu quarto para que descanse.

       Dee tentou resistir. No havia nada de errado com ela. Estava apenas aliviada
por estar finalmente livre do tormento que Julian Cox representava.

        Passara anos desejando ter algum com quem desabafar, mas nunca ousara cair
em tentao. Era como se ao manter silncio estivesse protegendo a memria de seu
pai. E agora o perigo tinha passado.

       Voltou a si no momento que Hugo se afastou e comeou a fechar a porta do seu
quarto.

        Quer que eu ligue para algum? Gostaria de ter alguma amiga ao seu lado?

       Ela negou com um movimento de cabea.

        No quero ningum.

      Queria apenas a sua cama. Queria deitar-se, cobrir-se e esquecer tudo. Mas ao
tentar dar um passo, as pernas no lhe obedeceram. Uma tontura ameaou
desequilibr-la. Antes que casse, porm, sentiu braos fortes a sustentarem-na.

      Fechou os olhos e uma saudade imensa invadiu-a. Tantas vezes dissera a si
mesma que Hugo pertencia ao passado e que teria de aprender a viver sem o seu amor,
que pensara ter-se convencido disso. Mas bastou t-lo junto a si, para que os anos de
separao desaparecessem.

       Subitamente ela tinha voltado a ser a garota dos tempos da faculdade,



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apaixonada pelo seu namorado.

        Hugo.

       Ele no disse nada. Apertou-a de encontro ao peito e acalentou-a. Ela fechou os
olhos e ofereceu avidamente os lbios.

       J tinha experimentado antes aquela paixo. J tinha sido beijada com tanto
ardor que se esquecera de respirar. J tinha sentido aquele desejo de possuir e ser
possuda por inteiro, de corpo e alma.

       Dee abraou-o como se a sua vida dependesse daquilo. J o tinha perdido uma
vez, assim como perdera o seu pai. Seu pai no voltaria. Mas Hugo estava ali, vivo,
palpitante. Ele era real.

       Uma paixo devastadora como uma tempestade inundou-a. Fechou os olhos e os
ouvidos  razo.

      Ouviu Hugo gemer e os seus sentidos reconheceram o som. As suas mos
percorreram as costas dele e depois desceram at  sua cintura. Atraiu-o, ento, de
encontro ao seu prprio corpo num convite mudo para que ele a tocasse, para que ele
soubesse o quanto continuava a am-lo, a desej-lo.

        Dee...

       No conseguiam falar. No havia tempo. Havia muitos beijos a serem trocados.

        Despe-me, Hugo  implorou ela.  Depressa. No posso esperar.

       Para provar o que estava sentindo, Dee ps-se a desabotoar a blusa. Mas estava
ansiosa demais e resolveu desabotoar a camisa dele primeiro. As suas mos tremiam
tanto, que no lhe obedeciam.

        Hugo, ajude-me. Preciso de v-lo, de toc-lo, de sentir o seu sabor...

      Estava to compenetrada no que fazia, que no se deu conta da tenso que se
apoderara de Hugo e do esforo da sua respirao.

      A pele de Hugo estava mais morena, os seus msculos estavam mais rijos e
volumosos. Ele estava ainda mais bonito do que antes, mais msculo e desejvel.

       Nunca tivera outro homem na sua vida, mas tinha a certeza de que poucos eram
to atraentes.

        Dee!



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       O modo quase brusco como ele falou, quando ela o beijou no peito, a fez erguer
a cabea e fit-lo inquiritivamente.

        Se pretende me torturar dessa maneira, quero tortur-la tambm
sussurrou ele.

       No mesmo instante, Hugo ps-se a desabotoar a sua blusa. E com uma rapidez
que ela no conseguira. J estava sem a blusa e sem o suti. Quando Hugo tentou
continuar a despi-la, ela no resistiu e cobriu-o de beijos.

       Ele deixou-a apenas de calcinha. As suas mos, ento, ocuparam-se em
acariciar-lhe os seios, provocando arrepios e gemidos.

       A descoberta sobre a morte de Julian Cox e a presena simultnea de Hugo
tinham derrubado por completo as barreiras de proteo que ela tinha construdo ao
redor de si mesma.

       Amava-o. O que sentia por Hugo era to forte que nunca encontraria palavras
suficientes para se expressar. Tudo o que podia fazer era tentar demonstrar com os
seus beijos e carcias o quanto o queria.

        O seu corpo no tinha esquecido nenhum toque, nenhum gesto. Quando Hugo se
inclinou e se ps a sugar-lhe os seios, ela estremeceu dos ps  cabea, incapaz de
compreender como pudera viver todo aquele tempo sem aquilo, sem Hugo.

       Abraou-o com fora e protestou ao sentir as calas jeans na sua pele, quando
o queria por inteiro.

       Hugo, por favor, tire isso. Quero senti-lo, quero toc-lo.

       Antes, ela poderia ter sentido vergonha. Agora era uma mulher, no uma
garota. E Hugo era um homem. O seu homem.

       Acompanhou os movimentos daquelas mos com os olhos brilhantes de paixo.
Prendeu a respirao quando Hugo se livrou do resto das roupas. J o vira nu muitas
vezes, mas por alguma razo o impacto da cena foi incrivelmente mais ertico.

      Incapaz de se controlar, Dee deu um gemido alto e levou as mos  boca.

       Hugo afastou-as e levou-as aos prprios lbios. Beijou as palmas e cada um dos
dedos. Quando se ps a sug-los, Dee sentiu uma onda de desejo to violenta que
precisou fechar os olhos para conseguir se conter.

       No chore, Dee  suplicou Hugo.  Por favor, no chore.



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       Ao mesmo tempo em que implorava, Hugo soltou as suas mos e segurou-lhe o
rosto, que cobriu de beijos.

       Dee no resistiu mais. Enlaou-o pelo pescoo, beijou-o com mpeto e desceu as
mos lentamente at alcanar o sexo potente, que acariciou com suavidade e firmeza
ao mesmo tempo.

        Dee...

      Havia um tom de alerta na voz dele, mas ela no atendeu  voz da razo,
mergulhada que estava naquele mar de sensaes.

       No queria ouvir. Queria apenas sentir.

       Usava apenas uma fina e minscula calcinha de seda. Mas logo Hugo se livrou
dela. Mesmo que no tivesse percebido o gesto, tomaria conscincia da sua nudez pelo
modo como Hugo prendeu a respirao.

        Continua a mesma que conheci. No mudou. Eu nunca pude esquec-la.

       Lgrimas de emoo marejaram os olhos de Dee. Hugo tocou-os.

        No chore, minha querida, no chore.

        No estou chorando  respondeu Dee quando Hugo a ergueu nos braos.
Apenas no me deixe esperar mais. Sinto tanta necessidade de t-lo dentro de mim,
que chega a doer.

        No posso, Dee. No estou prevenido.

        Sim, pode  protestou Dee.  Sei que me quer tanto quanto eu.

       Dee afastou-se dele e deitou-se. Quando estendeu os braos para receb-lo,
Hugo fechou os olhos. Lentamente, foi at ela e voltou a beij-la. Com calma no incio e
depois com uma voracidade quase elementar.

       Quando Hugo a penetrou, Dee gemeu alto. Fazia muito tempo e ela queria-o
demais. A cada investida, ela sentia uma exploso de prazer. Conhecia aquele corpo. J
o tinha recebido uma infinidade de vezes, mas daquela vez foi diferente. Foi muito
mais do que uma satisfao fsica. Foi uma manifestao de amor, de saudade, de
necessidade.

       O seu corpo clamava pelo xtase, mas ela retardou-o o mais que pde. At que,
incapaz de prolongar o prazer, abandonou-se aos espasmos que provocaram o orgasmo
quase imediato de Hugo.


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       Abraou-o com fora, entregue ao destino, a um poder maior do que tudo.

        Hugo, eu nunca deixei de am-lo. Precisei me afastar por causa do meu pai.

       Hugo afastou os cabelos do seu rosto.

        No pode continuar acreditando que seu pai se matou, Dee  insistiu Hugo.
 Ns nunca nos entendemos, mas eu o conheci o suficiente para ter a certeza de que
ele nunca teria cometido um ato insensato como esse, por maior que fosse a presso a
que estivesse submetido.

        Acredita realmente nisso?  indagou Dee.

        Acredito. O seu pai era um homem forte e amava-a demais para fazer algo
que pudesse causar-lhe sofrimento.

        A traio de Julian Cox destruiu-o. Humilhou-o. O meu pai no conseguiu
perdoar-se por ter confiado nele. Restituiu o dinheiro roubado logo que soube do
desfalque, mas isso no aliviou a sua conscincia.

       Dee fechou os olhos.

        Estou exausta. Acho que foram demasiadas emoes por um dia.

       Hugo inclinou-se e beijou-a de leve na boca.

        Durma, minha querida. Procure descansar.

        Hugo esperou que Dee adormecesse para se levantar da cama. Peter receberia
a visita de um cardiologista naquela noite, indicado pela doutora Jane Harper, e ele
tinha prometido que estaria presente.

       No houvera tempo para dizer a Dee tudo o que queria. O seu desabafo sobre o
que acontecera ao pai deixara-o desconcertado e triste. Sabia o quanto Dee o amara e
o quanto deveria ter sofrido com a sua perda, principalmente por causa do modo como
pensara que tinha acontecido.

      Eram estranhos, os caminhos do destino. Viera at Dee naquele dia movido por
um impulso, por uma necessidade fremente. Embora a lgica e o bom senso o
chamassem de tolo, por nunca ter conseguido esquec-la, resolvera tentar uma
aproximao com Dee e implorar que ela desse uma segunda oportunidade ao seu amor.

       E acontecera um verdadeiro milagre. Dee ainda o amava. Ele tinha amadurecido
naqueles anos e reconhecido que Dee tivera certa razo ao cham-lo de egosta. No
fora justo com ela, querendo que partilhasse dos seus sonhos, do seu objetivo de vida.


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       Agora as circunstncias eram outras. Ele no precisou de muito tempo para
descobrir que, sem Dee, os seus sonhos nunca seriam concretizados. Tivera a
satisfao de saber que trabalhara em benefcio de muita gente. No entanto, a sua
vida particular fora vazia e solitria. No por falta de mulheres interessadas em
tornarem-se suas amantes, mas porque nenhuma mulher se comparava a Dee.

       Ele tentou enganar-se durante um longo tempo, dizendo a si mesmo que, ao
trocar o seu amor pelo do seu pai, fora Dee quem sara perdendo, mas ao receber a
notcia de que Dee se tinha casado e esperava um beb, no teve dvidas de quem se
tornara o maior perdedor.

        Feliz e sereno como no se sentia h anos, Hugo resolveu no interromper o
sono de Dee. Iria at casa de Peter, conversaria com o mdico e depois ligaria para
ela, a fim de convid-la para jantar e para passarem uma noite bem romntica num
hotel, como da primeira vez que fizeram amor.

      Hugo dirigiu-se ao carro, assobiando.

       Se soubesse que Dee no estava casada, teria voltado muito antes. Amava-a.
Nunca tinha deixado de am-la. Peter confundira-o com as suas preocupaes sobre o
projeto no qual Dee vinha trabalhando. Mas a idia era magnfica. A sua primeira
providncia, assim que o velho professor estivesse em condies, seria ter uma longa
conversa com ele.




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      Captulo 10



       Dee acordou abruptamente de um sonho no qual se vira a caminhar  beira de
um rio de mos dadas com o pai. Da mesma maneira que faziam quando ela era pequena.
As guas do rio estavam to claras e transparentes que dava para ver o fundo.

       Ela sentiu o rosto molhado. Mas eram lgrimas de emoo. Algo lhe dizia que
estava tudo bem, que o seu pai estava em paz.

      Sentou-se na cama e olhou para o lado. Hugo no estava ali, mas havia uma folha
de papel sobre a sua almofada.

      Desdobrou-a com o corao palpitante.

      "Amo-a", escrevera ele.

      Dee fechou os olhos. Hugo amava-a. No estava mais com ela. Mas tinha a
certeza de que voltaria.

       Hugo era assim. Sincero, autntico. Se dissera que a amava, ela podia
acreditar.

       Como pudera viver tanto tempo longe dele? Amava-o tanto, que ainda podia
sentir o seu calor na pele, no fundo do seu ser. No sabia que futuro teriam juntos,
mas, naquele momento, isso no importava.

       Quando discutiram a respeito de Peter, ele tinha dito que poderia fixar
residncia onde bem entendesse. A sua posio atual na agncia no o obrigava a viver
em pases longnquos.

       O trabalho dela era em Rye-on-Averton, mas se o conselho de administrao
recusasse as suas idias, talvez ela no continuasse fazendo parte da instituio. A
fundao, afinal, sobreviveria sempre e ela j no precisava se preocupar mais em
zelar pelo bom nome de seu pai, pois ningum poderia tentar macul-lo agora.

       Nada mais a prendia a Rye. No tinha mais responsabilidades nem deveres para
com a cidade. Poderia mudar-se para qualquer lugar, poderia viver com Hugo onde ele
quisesse lev-la.

      Ele no tinha escrito que a queria, que precisava dela, mas que a amava. Talvez
pudessem finalmente casar e ter filhos.

      Filhos...


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Capricho do Destino                                                      Penny Jordan

       Dee tocou no ventre. Teria Hugo sentido o mesmo que ela? Teria percebido que
no auge da paixo eles tinham criado um novo ser? Um filho? Ou seria a sua
sensibilidade de mulher? Uma revelao secreta de que o seu corpo j no era
exclusivamente seu?

      Com nimo renovado, Dee levantou-se e tomou um banho rpido. Tinha algo
importante a fazer.

       Bem, com o diagnstico otimista do doutor Stewart  disse a doutora Jane
a Hugo,  o professor no corre nenhum risco. A sua fora de vontade ajudou na
recuperao. Portanto, ele poder ter a sua vida normal de volta e no precisar
depender de ningum.

       Estavam na cozinha da casa de Peter. O cardiologista j tinha se retirado, mas
a mdica no parecia ter pressa.

        Ele sente-se muito s  contou Hugo.

        Agora sim, mas logo que reassumir as suas atividades no ter mais tempo
para a solido. Isso no significa que no possa visit-lo sempre que quiser. Alis, ser
bom para voc tambm.  jovem e tem o direito de viver a sua prpria vida  a mdica
fez uma pausa.  Por falar nisso, gostaria de jantar em minha casa uma noite destas?

       Hugo sorriu.

         muito gentil, mas, infelizmente, no ser possvel.

       Porque ele no queria outra mulher. S queria Dee. Por orgulho, no a tivera
durante todos aqueles anos. Como se arrependia por no ter implorado que Dee o
aceitasse de volta! Por que concordara, quando ela declarou que estava tudo acabado
entre eles?

       Se soubesse a verdade!

       Era mais tarde do que esperava, quando conseguiu despedir-se de Peter.

       O professor estava ansioso sobre a visita do cardiologista e ficara conversando
a esse respeito durante horas.

       Quando finalmente entrou no seu carro, a sua primeira atitude foi ligar para
Dee para avis-la de que estava a caminho, mas ela no atendeu. No se preocupou.
Iria at sua casa mesmo.

      O carro no estava na garagem. Isso o fez franzir o sobrolho. Aonde teria ido
Dee? Por outro lado, por que estava estranhando a sua ausncia? Sara cedo, sem se


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despedir. O que queria? Que ela estivesse  sua espera de braos abertos?

       Respirou fundo e procurou enviar a Dee todo o seu amor, onde quer que ela
estivesse.

      De repente, a sua intuio disse-lhe o que fazer. No ficaria de braos
cruzados, no carro,  espera. Iria ao seu encontro.

       Havia mais de dez adolescentes reunidos ao redor de um banco na praa, sem
ter o que fazer.

       O relatrio de Dee surpreendera-o e fizera-o envergonhar-se de si mesmo pelo
modo como a tratara. Como pudera negar-se a ouvi-la? Como pudera apoiar Peter sem
sequer tentar examinar a proposta?

       No parou. Precisava ir at  igreja. Ali, contara-lhe Dee, tinham-se casado os
seus pais. E ali estavam enterrados.

      Hugo estacionou o seu carro e seguiu a p. No tinha se enganado. Viu o carro
de Dee em seguida.

       Era a primeira vez que Dee visitava o lugar  noite. No estava com medo. Havia
paz naquele extenso relvado que guardava os seus entes queridos.

        Pai, perdoe-me se errei no meu julgamento. Houve ocasies em que o odiei
tanto quanto a Julian Cox, por me ter abandonado. Hugo tem a certeza de que no me
deixou deliberadamente, que foi um acidente. Que me amava demais para me deixar
sofrendo. Nunca o entendi como agora. Se ambos estavam sempre tecendo crticas um
ao outro, era porque ambos me amavam. Foi terrvel para mim ter de escolher, mas
como poderia ter partido com Hugo, deixando-o sozinho e desesperado? Eu tive de
ficar e proteg-lo, zelar pela sua reputao.

        Dee...

       Dee olhou para trs rapidamente ao reconhecer a voz.

        Hugo, o que est fazendo aqui? Como soube...?

        Eu simplesmente adivinhei.

        Eu precisava vir  murmurou ela.  Precisava falar com o meu pai.

        Dee, por que no me confiou os seus receios? Sabia que podia confiar em
mim.




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        Sim, eu sabia, mas no achei justo colocar as minhas dvidas sobre os seus
ombros. Eu sabia tambm o quanto era importante para voc uma reputao sem
mcula. Se o nome de meu pai fosse envolvido num caso de fraude, seria impedido de
perseguir o seu sonho.

      Dee deteve-se e baixou os olhos.

         Acima de tudo, eu achei que no era to importante para voc como os seus
planos. Que estava mais interessado nos seus ideais do que no nosso amor. Tive medo
de me entregar por inteiro a voc, porque no acreditava que pudesse se entregar por
inteiro a mim.

       Ento mentiu que no me amava mais.  Dee fez que sim com a cabea.

       Nunca deixei de am-lo. Queria que voltasse. Queria dizer-lhe que tinha
mudado de idia. Mas nunca voltou...

         Est enganada  retorquiu Hugo.  Aps seis meses de solido, eu resolvi
voltar. Fiquei alucinado quando me contaram que estava casada e grvida.

       Houve uma confuso de nomes, provavelmente  contou Dee.  Aconteceu
com a minha prima.

         Eu errei em no fazer indagaes. Mas estava chocado demais com a notcia.
Naquela ocasio, pensei que o meu amor tinha se transformado em dio. Senti-me
trado. Nunca houve outra mulher para mim.

       Nunca houve nenhum outro homem para mim tambm, Hugo. Eu sempre quis
ter uma famlia. Mas nunca pude aceitar a idia de ter um filho, se o pai no fosses
voc.

       Dee olhou mais uma vez para a sepultura e despediu-se do pai. Quando tornou a
fitar Hugo, ele estava com os braos estendidos para ela.

        Como senti a sua falta, Dee! Como foi maravilhoso t-la outra vez, poder
toc-la, beij-la! No sei como pude suportar estes anos sem voc.

       Abraaram-se com fora. Todo o dio, amargura e tristeza se derreteram
como gelo ao sol, ao calor do corpo de Hugo. No havia mais lugar nos seus coraes
para sentimentos que no fossem de amor.

       Vamos para casa?  sugeriu Hugo. Ela sorriu para ele.

       A que lugar, exatamente, est se referindo?



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           Abraados, a caminho da rua, Hugo inclinou-se e sussurrou ao ouvido de Dee:

            A minha casa  onde voc estiver.

           Ele seguiu-a no seu carro. Na calada, tirou a chave da mo de Dee e abriu a
porta.

        Como soube onde me encontrar?  perguntou Dee depois que entraram e ele
lhe deu um beijo.

        No sei explicar. Eu simplesmente soube. Pretendia lev-la para jantar, mas
acho que j  tarde para isso.

        Sim,  tarde  concordou Dee.  Acho bom descobrir outra maneira de
saciar a minha fome.

            Sei de muitas  garantiu Hugo.

           De repente, Dee fitou-o, preocupada.

            Deus, eu no lhe perguntei sobre Peter!

      Ele est bem. Muito melhor do que espervamos, graas a Deus. A propsito
 Hugo fez uma pausa,  sobre aquele seu projeto...

           Dee franziu o rosto. No queria discutir com Hugo. No queria estragar aquela
noite...

        No espere que eu mude de opinio, Hugo. Sei que Peter no aprova a minha
idia e que terei dificuldades com os demais membros do conselho de administrao,
mas continuo a afirmar que os jovens...

            Concordo contigo.  Dee fitou-o, perplexa.

            Concorda?

        Sim. Alis, no entendo por que Peter se ops. Ele no deve ter lido o seu
relatrio.

       As circunstncias no estavam favorveis  murmurou Dee.  Ele estava
doente e assustado...

       Falarei com Peter a esse respeito  prometeu Hugo.  Espero convenc-lo
de que merece a sua confiana. Preciso de avis-la, contudo, de que embora no
concorde, terei de votar segundo a vontade dele, como seu procurador legal.



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         Eu compreendo  respondeu Dee.

         Mas garanto-lhe que farei tudo o que estiver ao meu alcance para convenc-
lo a votar a seu favor. Acho o seu projeto magnfico.

        Pensei que dedicasse o seu tempo apenas aos seus projetos. Desculpe, Hugo,
mas acha certo querer usar os fundos da universidade que deveriam ser empregues em
benefcio dos estudantes em programas de ajuda a povos estrangeiros, por mais que
eles necessitem?

        Hugo fitou-a, assombrado.

         Est enganada! Eu no fao esse tipo de trabalho. A minha tarefa neste
momento  conseguir apoio das universidades no sentido de introduzirem um curso
vocacional que oriente os estudantes para colaborarem com os nossos programas de
auxlio. Precisamos de crebros jovens e inovadores que nos apontem solues para os
problemas que assolam o mundo.

        Hugo sorriu.

         Mas isso ficar para depois. No momento, nada mais me importa a no ser
voc.

       Naquela noite, quando fizeram amor, foi com calma e ternura. Havia paixo e
desejo em cada beijo, em cada carcia, mas j no desespero.

       Est mais bonita ainda como mulher do que quando era garota  disse Hugo
a Dee enquanto percorria as curvas de seu corpo com as pontas dos dedos e tambm
com os olhos.

         E voc est ainda mais msculo e mais sexy  murmurou Dee.

        Hugo riu e balanou a cabea. Dee segurou-o pelos ombros e encarou-o.

         No acredita em mim? Pergunte  doutora Jane Harper.

        Jane qu? Acho que no conheo  gozou Hugo, e mergulhou os lbios nos
seios de Dee.

         Senti cimes  confessou Dee.

        Aposto que no sentiu tanto cimes quanto eu, quando pensei que estivesse
casada com outro  declarou Hugo.  No pode imaginar como me senti. Jurei a mim
mesmo que jamais me apaixonaria por outra mulher, que nenhuma outra me faria
sofrer.


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       Dee abraou-o. Agora estavam juntos. Ela nunca mais o deixaria partir. Nunca.



       Os convidados j tinham se despedido e Beth estava colocando os pratos e
talheres na mquina, enquanto Alex lavava os copos de cristal na lava-loua.

       No  maravilhoso que Dee e Hugo estejam juntos?  comentou Beth com o
marido.

        Dee e Hugo? No sei de nada!  protestou Alex.  Pensava que o fato de
eles se conhecerem fosse uma mera coincidncia.

        Ora, Alex! No notou?

        Havia algo para ser notado?  protestou Alex.

        Eles mal se falaram a noite inteira!

        No havia necessidade de palavras  explicou Beth.  A atmosfera chegava
a vibrar ao redor deles. Est acontecendo algo entre eles. Posso apostar nisso. Cus, a
maneira como eles olhavam um para o outro...

       Alex olhou para a esposa e balanou a cabea.

        Desculpe, no quero colocar gua na fervura, mas no acredito que Dee
tenha a sorte de encontrar um marido como voc me encontrou.

       Beth sorriu e deu um belisco, devagarinho, no brao de Alex, antes de se
afastar em direo  sala.

        Hei, aonde vai?  quis saber Alex.

        Apenas telefonar para Anna. Em particular!

       Acha que Beth descobriu o nosso segredo?  perguntou Dee a Hugo, mais
tarde, no aconchego da cama.  Ela olhou-me com cumplicidade quando nos
despedimos!

        Bem, se ela desconfiou de algo, no foi por minha culpa  defendeu-se Hugo
com ar malicioso.  No fui eu que fiquei de provocaes com o p por baixo da mesa.

     Eu j repeti uma srie de vezes que no foi de propsito  argumentou Dee.
 O meu sapato tinha cado.

        No sou de ferro  Hugo continuou a se defender.  Quase trepei pelas


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paredes quando fez aquilo.

        Combinamos que ningum deveria saber sobre ns at depois da reunio do
conselho de administrao. Se eu tivesse imaginado que era voc o convidado de Alex
para jantar, eu...

       A idia sobre mantermos o nosso amor em sigilo foi sua, no minha.

 claro que foi. No quero que os membros do conselho de administrao
pensem que...

        Pensem o qu?  gozou Hugo.  Que se aproveitou de mim e me enfeitiou
para conseguir o meu voto?

        Ora, Hugo, estou falando srio!  protestou Dee.  Eu jamais seria capaz de
algo assim.

       No?  ele provocou-a.  Tem certeza?  Dee suspirou. No resistia
quando Hugo a acariciava e sussurrava ao seu ouvido.

       No vale  protestou.  A sedutora aqui sou eu.

       No sei. Talvez eu tambm queira praticar os meus poderes mgicos contigo.

       Para qu?  Dee soprou-lhe um beijo.  Eu j sou totalmente sua, no sou?

 verdade  concordou Hugo.  E logo todos sabero disso, mesmo que
tentemos esconder o fato.

       O modo como Hugo olhou para baixo e acariciou a sua barriga deixou-a
perplexa.

       Como descobriu? Ainda levar meses at que d para se notar!

       Exatamente como voc. O que houve entre ns foi forte demais, intenso
demais.

      Os olhos de Dee estavam brilhantes de amor e de emoo.

       Agora ter de casar comigo, quer queira quer no  brincou Hugo.



      Hugo estava de p diante do conselho de administrao. As suas palavras
ecoavam entre os presentes, que permaneciam em respeitoso silncio.



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        Para concluir, gostaria de reiterar que em minha opinio este conselho de
administrao tem um dever moral ao seu fundador de seguir os seus passos e ajudar
sempre aqueles que estiverem mais necessitados. Como o relatrio que temos  nossa
frente demonstra e prova, o setor da nossa comunidade que se encontra em situao
de maior carncia neste momento  o jovem.

      Hugo fez uma pausa e olhou para todos em seu redor.

        Precisamos valorizar os nossos jovens, que no tm nem sequer uma
oportunidade de contemplar o futuro. Precisamos fazer com que se sintam amparados,
precisamos ensin-los a ter f em si mesmos e a aprender um ofcio que lhes garanta a
sobrevivncia e uma vida digna. Ajudando esta camada da nossa populao, estaremos
investindo no futuro. No apenas no futuro deles, mas dos nossos prprios
descendentes. Se negarmos a estes jovens a oportunidade de se tornarem cidados
responsveis, estaremos cometendo um grave delito como seres humanos.

      Hugo respirou fundo.

        Para darmos um passo dessa magnitude, precisaremos de coragem. No
duvido, contudo, de que todos ns somos capazes de dar esse passo. A questo ,
acreditam neste projeto?

       Dee quase no conteve um soluo quando todos os membros aplaudiram as
palavras de Hugo.

      Fora uma surpresa no apenas para o conselho de administrao, mas para Dee,
que Hugo pedisse licena para falar no por Peter, mas por ele mesmo.

        O consentimento foi geral. Hugo era uma pessoa famosa no mundo da caridade
e eles sentiam-se honrados pela sua presena.

       Hugo, o seu futuro marido, o seu amor, o pai do seu filho, tinha conseguido o
que ela e o pai tanto tinham lutado para dar aos necessitados de Rye-on-Averton:
ajuda e dignidade.

      Hugo fora to incrvel que, em vez de implorar que o conselho de administrao
aprovasse o seu projeto, conquistou-o, valorizando os seus membros pelo que eram:
pessoas compreensivas, sbias e generosas.

      Naquele momento, Dee sentiu-se como se o seu pai estivesse ali, sorrindo.

      Com a voz embargada, ela olhou para Hugo e sussurrou.

       Eu o amo. Eu o amo muito.



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       Dee no tinha dvidas de qual seria o resultado da votao. O entusiasmo, o seu
entusiasmo, estava refletido em todos os rostos. Os adolescentes da sua cidade
teriam um centro de convivncia e de aprendizagem. Eles ainda seriam o orgulho de
Rye-on-Averton.

       Naquela noite, Dee ofereceria um jantar especial aos amigos. Era o seu
aniversrio, mas o motivo da comemorao era especial e secreto ainda. Kelly e
Brough, Anna e Ward, Beth e Alex, todos teriam uma grande surpresa.

      O anel de noivado j estava, contudo, no seu dedo. Hugo o entregara naquela
manh, na cama...

       Como aquele crculo de ouro, a sua vida tinha completado um ciclo. Estava de
volta ao lugar onde nascera e logo seria esposa do nico homem que amara e que
voltara para ela aps uma longa separao.

      Naquela noite, durante o jantar, ela apresentaria Hugo aos seus amigos. As
sombras da sua vida tinham sido afastadas, uma por uma.

        Pare de olhar para mim dessa maneira  avisou-a Hugo,  seno...

       O resultado da votao estava prestes a ser anunciado.

       Foi sim. Por unanimidade.

      Dee ainda estava olhando para Hugo, quando as pessoas comearam a
aproximar-se para a cumprimentarem.




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      Eplogo



      Os sinos badalavam alegremente, quando Dee e Hugo saram da igreja para
receber os cumprimentos.

        Porque  que as mulheres choram em casamentos?  perguntou Brough a
Ward e Alex, ao notar que no apenas a sua esposa, mas tambm as esposas dos seus
amigos estavam em prantos.

       Ns choramos de alegria  respondeu Kelly.

       De felicidade  confirmou Anna.

       Aquela manh, antes da cerimnia, as trs amigas tinham ajudado Dee a vestir-
se. Poucas vezes, todas concordaram, uma noiva parecia to linda e to feliz.

       Antes de irem para a igreja, Dee provou que alm de feliz estava segura do
passo que estava prestes a dar.

        Quero brindar com vocs ao amor  ela abriu uma garrafa de champanhe,
serviu as taas e piscou um olho s amigas no momento de entreg-las.  E aos homens
que so responsveis pela nossa felicidade.

       As trs amigas agora estavam atirando ptalas de rosas sobre os noivos. O
cenrio era de um conto de fadas. Havia sorrisos em todos os lbios. Os trajes no
poderiam ser mais elegantes.

       Os fotgrafos no paravam de registrar aqueles momentos de pura magia.
Apesar de a cerimnia ter terminado, eles continuavam a fotografar os noivos e os
seus amigos do lado de fora da igreja.

      Tirada a ltima fotografia, com os quatro casais reunidos, Hugo deu um beijo
em Dee e fez um pedido a Anna.

        Dava para reunir todos e lev-los para o restaurante? Dee e eu precisamos
ficar sozinhos por alguns minutos antes de nos reunirmos a vocs.

       Anna apressou-se a atender o pedido de Hugo e a afastar discretamente os
convidados.

       Dee queria oferecer o buqu de noiva ao pai e Hugo entendeu. Deixou-a alguns
instantes sozinha e quando voltou para o seu lado, abraou-a e beijou-a.



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      Vamos? Voc e eu temos convidados  nossa espera.

      voc e eu?  questionou Dee com um sorriso.  No somos trs?

     Hugo fitou-a, emocionado.

      Sim, Dee. Somos trs. Por enquanto...


                                     FIM




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